A esperança escatológica de George Miller

A esperança escatológica de George Miller

Nesta edição de Universos Paralelos, um programa da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta), que podem encontrar em www.segundotake.com/podcast/2018/3/18/episodio125, testemunhamos a esperança escatológica de George Miller.

Carros, punk e o fim do mundo.

George Miller, médico de formação, inicia a sua carreira filmográfica com uma curta-metragem intitulada Violence in Cinema: Part 1 (1971). Realizada ainda durante os seus anos de formação médica, e recebida de forma polarizadora pelos críticos, foi colocada na categoria de documentário no Festival de Cinema de Sydney, em 1972, devido à sua representação de violência cinemática, característica que viria a marcar o seu cinema. 

Anos mais tarde, e após conhecer Byron Kennedy num workshop, na Universidade de Melbourne, em 1971, e com quem co-fundou a Kennedy Miller Productions — renomeada Kennedy Miller Mitchell, em 2009, de forma a reconhecer o trabalho de Doug Mitchell na produtora —, co-escreve com Kennedy o filme que viria a iniciar a sua carreira como realizador de filmes de acção, Mad Max – As Motos da Morte (1979).

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Mad Max veio ajudar a definir e a estabelecer o género de filmes de acção, pegando numa ideia base e despindo-a para uma narrativa simples, usando elementos típicos de storytelling, como desenvolvimento de personagens e cenários, fundindo-os e comprimindo-os em sequências e cenas de acção. Devido ao uso inteligente de símbolos, imagens e metáforas, Miller conseguiu substituir os elementos dramáticos comummenteencontrados em diálogos por estes recursos de estilo, levando a criar um cinema “não verbal”. Desta maneira, conseguiu dirigir a narrativa visual do filme tanto para uma experiência como para uma estória. 

Mad Max inicia, com o seu mundo retorcido e caricatural, um tema de intimidação, que irá ser comum ao longo da trilogia. Que para sobreviver é necessário ser-se duro e resiliente, mas que no fundo existe apenas uma fragilidade misturada com esperança, num mundo sem ordem. 

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Neste primeiro filme, a sociedade é alvo de um apocalipse em continuação, que acaba por reduzir o mundo ao mais primitivo dos cenários. Tal como o protagonista, Max (interpretado por Mel Gibson), os vilões são representações dos motards dos filmes exploitation dos anos 50 e 60. São, simplesmente, forças de cantos opostos do espectro. Ao longo do filme, Max sofre uma completa degeneração da sua humanidade, tornando-se, após o seu acto final de vingança, num ser que se alienou e que se torna demente, fazendo jus ao nome do filme.

No contexto de uma trilogia, Mad Max, serve como uma estória de origem para o protagonista e para o universo.

Depois do sucesso internacional do primeiro filme, Miller, iria estrear outro filme dentro deste universo, uma sequela de nome Mad Max 2: O Guerreiro da Estrada (1981). Após ter estreado como Mad Max 2, na Austrália e no Japão, os distribuidores Norte-Americanos julgaram que ninguém iria ver uma sequela para um filme que pouca gente, nos E.U.A., tinha visto, e renomearam o filme para The Road Warrior

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Ao contrário dos vilões do primeiro filme, que eram contra o sistema estabelecido, neste filme o apocalipse apoderou-se do mundo e já não existe qualquer forma de sociedade. Agora, apenas interessa uma coisa: combustível. A sua procura é o tema principal desta segunda entrada neste universo. Max, despedaçado e alienado, vive apenas com um propósito, encontrar combustível para continuar a mover-se, e sobreviver.  O combustível, a gasolina e a energia que deles advém é o que faz o mundo girar, servindo como o holy grail das personagens, na esperança de que ao encontrarem-no, possam também (re)descobrir um estado civilizacional.

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No terceiro filme, Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão (1985), a ideia de uma sociedade reconstruída e melhorada, num mundo pós-apocalíptico é o tema central, ajudando a completar o desenvolvimento do protagonista em relação com o seu meio-ambiente, como uma progressão linear narrativa dentro da trilogia. A dualidade das duas sociedades opostas presentes, que leva Max a ascender ao estatuto de herói, mas que inevitavelmente – com o seu sacrifício de ajudar uma sociedade a ascender sobre a outra – descende ao estado de renegado, reforça a circularidade do arco narrativo do protagonista e completa a fábula mítica, que é simbolicamente atribuída ao renascimento. 

Volvidos 30 anos, Miller retorna a este universo, com Mad Max: Estrada da Fúria (2015). Com uma nova interpretação de Max, por Tom Hardy, e com personagens protagonistas novas, como Furiosa (interpretada por Charlize Theron), é observável uma estória hiperbólica, contada através dos detalhes, reflectidos nas acções das personagens e na maneira como interagem com o meio-ambiente, e onde o cenário é a estrada, que serve menos de lugar estático, mas mais como palco da acção, da perseguição e da corrida.  

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Num mundo completamente desprovido de humanidade e onde a demência e autoridade dominam, a redenção, onde Max, finalmente, reganha a sua humanidade, permitindo-lhe seguir em frente, torna-se no tema principal desta quarta entrada, devolvendo o estado da personagem que se encontra no primeiro filme, dando-lhe a liberdade que ele tanto procurava. O filme encerra com uma nota de esperança na reconstrução de um novo mundo e de uma sociedade equilibrada.  

George Miller vai deixando um legado, que influencia muitos, e que certamente ainda não se encontra terminado, com um novo Mad Max em produção. 

Tomás Agostinho, Novembro de 2017

 

Fontes primárias

Filmografia

  • Mad Max - As Motos da Morte (Mad Max, 1979)
  • Mad Max 2: O Guerreiro da Estrada (Mad Max 2, 1981)
  • Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985)
  • Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015)

 

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Bernstein, A. (2015) The Art of Mad Max: Fury Road. London, Titan Books.
  • Page, E. (2015) Mad Max: Movies of Apocalyptic Mayhem. CreateSpace Independent Publishing Platform.

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