O futuro distópico de Terry Gilliam

O futuro distópico de Terry Gilliam

No próximo episódio de Universos Paralelos, um programa da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta), que poderão encontrar segunda-feira, 18 de Junho, em www.segundotake.com/podcast, viajamos no tempo para conhecer futuros distópicos saídos da imaginação fértil de Terry Gilliam.

Nascido nos Estados Unidos em 1940, e mais tarde naturalizado inglês, renunciando mesmo à nacionalidade norte-americana, Terrance Vance Gilliam tornou-se conhecido no mundo do espectáculo audiovisual por ser um dos seis elementos da célebre troupe de comediantes Monty Python, que em 1969 começaram a surpreender o mundo com o seu programa de televisão Monty Python’s Flying Circus (BBC, 1969-1974).

Tal como os seus parceiros "pythonianos", Terry Gilliam ostentava uma educação superior (Mestrado em Ciências Políticas) quando decidiu seguir a carreira artística, dando expressão à sua paixão pelo desenho e animação. Foi como animador e desenhador de banda desenhada na revista Help! que Gilliam iniciou a carreira nas artes gráficas, e quando esta fechou, rumou a Inglaterra, onde acabou a desenhar para televisão, nomeadamente no programa Do Not Adjust Your Set (1967-1969), onde conheceu os futuros Python Eric Idle, Michael Palin e Terry Jones.

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Nos Monty Python, Gilliam foi o responsável pelos elos de ligação animados entre sketches, que combinavam na perfeição com os cortes abruptos pretendidos no humor da série, e onde usava de um surrealismo de associação livre, humor negro e imaginário grotesco, feito de colagens, e recorrendo a conhecidas obras de arte e fotografias antigas, o que resultou num estilo muito próprio e ainda hoje inconfundível.

Aos poucos, Gilliam passou a ter um pouco mais de peso como actor e autor de sketches (principalmente na quarta temporada da série — aquela em que John Cleese tirou um ano de sabática —, e também nas actuações de palco), mas a sua contribuição, como se veria na passagem ao cinema, seria sobretudo na definição da imagem do grupo. Com essa vertente em mente, Gilliam assumiu a direcção (a meias com Jones) do filme Monty Python e o Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail, 1975), um filme que lida com temas históricos e fantasia, desconstruídos com o habitual humor corrosivo dos Python, num rumo que Gilliam prosseguiria nas suas obras a solo: Aventuras em Terras do Rei Bruno, o Discutível (Jabberwocky, 1977), Os Ladrões do Tempo (Time Bandits, 1981) e A Fantástica Aventura do Barão (The Adventures of Baron Munchausen, 1988), qualquer um deles com um ou mais Pythons presentes no elenco.

Após a realização da curta-metragem The Crimson Permanent Assurance, incluída em O Sentido da Vida (Monty Python's The Meaning of Life, 1983), os Python seguiram caminhos separados, com Gilliam a mostrar que, dos seis, era o mais talhado (e motivado) para a carreira de realizador.

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Em 1985, Terry Gilliam teria aquele que foi talvez o seu primeiro grande sucesso junto da crítica, com Brazil: O Outro Lado do Sonho, um filme que também escreveu, e que segundo o próprio faz parte da “Trilogia da Imaginação”, que compreende ainda Os Ladrões do Tempo e A Fantástica Aventura do Barão, e que passa por testemunhos do mundo através dos olhos de personagens deslocadas, à beira da loucura, ou em desespero (uma criança em Os Ladrões do Tempo, um adulto em Brazil e um idoso em A Fantástica Aventura do Barão). Brazil é, acima de tudo o primeiro dos filmes do que chamamos o futuro distópico de Terry Gilliam, uma espécie de conto "orwelliano" sobre uma sociedade futura, totalitária, presa a valores de pesadelo, sejam a extrema burocracia, a claustrofobia ou as idiossincrasias da classe dominante. Tudo nele é grotesco e surreal, numa pesada atmosfera de opressão, de que fugir parece ser a única opção sã.

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Fuga da realidade, fronteira entre a sanidade e demência, futuro horrífico distópico é também o tema de 12 Macacos (Twelve Monkeys, 1995), o segundo filme da “Trilogia Americana” — que compreende ainda O Rei Pescador (The Fisher King, 1991) e Delírio em Las Vegas (Fear and Loathing in Las Vegas, 1998) —, um remake do clássico de Chris Marker La Jetée (1962), e que nos tece uma complexa trama de viagens no tempo, numa história de inevitabilidade trágica, entre um futuro pós-apocalíptico e um presente não menos são, pelo menos para quem o vê com os olhos dos personagens de Gilliam.

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Esta obsessão distópica por um futuro grotesco e surreal volta em O Teorema Zero (2013), um novo conto de solidão e disfunções sociais, num mundo ininteligível aos nossos olhos, onde tudo e nada parecem apontar para o completo absurdo do sentido da vida (novamente o piscar de olhos à história dos Monty Python).

Em comum, tanto na obra de Gilliam (quer a animada, quer a de carne e osso), como na trilogia de distopias futurísticas, temos sempre a fronteira entre realidade e imaginação, entre sanidade e loucura. Temos ainda o poder da narração, com a arte de contar histórias a sobrepor-se à necessidade de cumprir balizas realistas. É assumindo que, quem conta uma história, o faz com um certo grau de loucura, que é a sua assinatura pessoal, que as narrativas de Gilliam nos chegam, imbuídas de um certo realismo mágico. Nele, e através do grotesco e exagero que são apanágios do humor, Gilliam pinta cenários que buscam em George Orwell ou Thomas Moore os extremos de sociedades imaginadas, mas que são parábolas para os paradoxos daquela em que vivemos. Burocracia, totalitarismo, caos, paranóia, terror escatológico, pressões e obsessões sociais, são os temas centrais dos futuros distópicos de Gilliam, onde protagonistas trágico-cómicos lidam com enredos de ironia sádica e humor negro, num surrealismo caricatural com um lado visual muito forte, a que alguns chamam barroco pela teatral mistura de influências (antigo/moderno, tecnológico/artesanal, belo/grotesco), como num pesadelo, que visualmente nos fascina, mas de que queremos acordar desesperadamente.

José Carlos Maltez, Fevereiro de 2018

 

Fontes primárias

Filmografia

  • Brazil: O Outro Lado do Sonho (Brazil, 1985)
  • 12 Macacos (Twelve Monkeys, 1995)
  • O Teorema Zero (The Zero Theorem, 2013)

 

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Gilliam, T., Christie, I. (1999). Gilliam on Gilliam. London: Faber and Faber.
  • McCabe, B.; Gilliam, T. (illustrations) (1999). Dark Knights and Holy Fools: The Art and Films of Terry Gilliam: From Before Python to Beyond Fear and Loathing. Darby, PA: Diane Publishing Co.
  • Gilliam, T. (2015). Gilliamesque: A Pre-posthumous Memoir. London: Harper Design.

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Documentários

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