Episódio #21 - Perdido em Marte / O Mundo em Perigo

Episódio #21 - Perdido em Marte / O Mundo em Perigo

Ridley Scott é uma espécie em vias de extinção. Bastaria Alien - O 8º Passageiro e Blade Runner - Perigo Iminente para ser um nome digno de panteão, não só do género de ficção científica mas do cinema em geral. Acontece que estes títulos são apenas da fase inicial da carreira do realizador britânico. E se esta tem altos e baixos, tanto critica como comercialmente, Ridley Scott continua a cortar a direito com os seus projectos de eleição, incluindo filmes de fôlego épico como já não se usa. Alguns valem-lhe a aclamação da academia, como Gladiador, vencedor de 5 Oscares referentes ao ano de 2000, incluindo o de Melhor Filme, enquanto que outros não deixam marca a não ser nas discussões dos sites da especialidade a propósito da raça do elenco, o caso do flop comercial e crítico de 2014 Exodus: Deuses e Reis. Pelo meio, sejam as cruzadas cristãs em O Reino dos Céus, o mundo do crime em Gangster Americano ou a reinterpretação do ladrão que rouba aos ricos para dar aos pobres em Robin Hood, existe em Scott uma vontade para contar histórias maiores que a vida.

Perdido em Marte é a segunda incursão de Ridley Scott ao universo da ficção-científica em quatro anos, depois de Prometheus em 2012. Este foi uma das minhas maiores desilusões dos últimos tempos. Uma prequela distante de Alien - O Oitavo Passageiro pela mão do mesmo realizador que iria semear o caminho que lentamente desembocaria nos eventos deste filme. Esta parecia uma aposta ganha e apesar de visualmente o filme ser irrepeensível, o resultado final mostra que Ridley Scott não conseguiu lidar com um guião Frankenstein onde a vontade de afastar o rascunho inicial de Jon Spaiths do universo Alien produziu uma mitologia tão ambiciosa e cheia de si que vergou sobre o seu próprio peso através da contribuição do mal-amado argumentista Damon Lindelof que se traduziu numa série de buracos narrativos, cenas sem sentido, personagens sub-desenvolvidas, e uma versão do filme que, apesar de validada pelos seus autores, parece ser o resultado de um trabalho de corte e costura de uma versão mais longa que poderemos nunca conhecer. A verdade é que a sequela prevista para 2017 já corrigiu o curso e tem como nome provisório Alien: Covenant, declarando mais explicitamente a relação com aquela saga e afastando-se do amargo de boca deixado pelo fime anterior.

Há muito que a ficção se deixa fascinar por Marte, desde Edgar Rice Burroughs, nos primórdios do século XX com as aventuras de John Carter, até à década de noventa com uma série de filmes com este planeta como pano de fundo. Títulos como Desafio Total, Espécie Mortal II, Missão a Marte, Planeta Vermelho ou mesmo Fantasmas de Marte, um dos filmes mais mal amados de John Carpenter. Curiosamente neste conjunto de filmes Marte é explorado como o cenário de eventos violentos ou a própria causa de ameaça à nossa existência e sobrevivência. Perdido em Marte junta-se ao cânone de obras sobre o Planeta Vermelho e, sendo ficção-científica, distingue-se de Alien, Prometheus ou dos filmes referidos anteriormente pelo seu lado mais verosímil e científico. Pertence ao que se designa de Ficção Científica Hard, sub-género caracterizado pelo seu interesse nos detalhes técnicos e na precisão científica.

Baseado no popular livro O Marciano, de Andy Weir, conta a aventura do astronauta Mark Watney, interpretado por Matt Damon que, depois de Interstellar, parece estar a especializar-se no papel de astronauta perdido. Watney, ao ser abandonado acidentalmente em Marte, recorre aos seus conhecimentos científicos e de botânica para garantir a sobrevivência. Não li o livro mas diz quem o leu que é uma experiência inspiradora, detalhando a par e passo o processo de resolução de cada problema, e demonstrando que, com método, conhecimento e perserverança, qualquer obstáculo pode ser ultrapassado.

Perdido em Marte beneficia, além do sentido visual e estético do seu realizador, de um bom argumento por Drew Goddard, colaborador de J.J. Abrams, para quem escreveu Nome de Código: Cloverfield, e Joss Whedon com quem escreveu a sua estreia na realização em 2012, A Casa na Floresta, uma desconstrução metafísica dos lugares-comuns do cinema de terror moderno. Somos imediatamente lançados para os acontecimentos que abandonam Watney em Marte e, em menos de nada, estamos com Matt Damon na luta pela sua sobrevivência. O que surpreende é o tom do filme, tão optimista como o seu protagonista, apesar da situação aparentemente irremediável em que se encontra. E este é o factor determinante para o seu sucesso. Este não é um filme sobre o destino mas sim sobre o caminho e a determinação em tomá-lo.

E não podia ter melhor protagonista que Watney, tal como interpretado por Damon, eterno optimista e perserverante na sua inesperada missão, ajudado por um elenco recheado de cara conhecidas, onde cada personagem tem o seu papel a cumprir na teia complexa de elementos necessários para o sucesso do empreendimento. Este equilíbrio é conseguido através de uma gestão cuidadosa da parte de Goddard que não desperdiça nenhum personagem nem resvala para o sentimentalismo fácil evitando cenas pouco plausíveis para tornar a acção mais emocionante: é certo que não existem tempestades daquela natureza em Marte mas esta é uma concessão narrativa herdada do livro que, se não estivermos dispostos a fazer para suspender a nossa descrença, então nem vale a pena começar a ver o filme.

Perdido em Marte, apesar do seu tom ligeiro, tem momentos emocionantes e, tal como o resto do mundo no filme, chegamos ao final colados ao ecrã na antecipação do desfecho do mesmo. Com alguma sorte vai fazer com que uma série de jovens espectadores se interessem por ciência, botânica, espaço sideral, ou por todas estas coisas. E, se assim for, Ridley Scott conseguiu algo mais importante do que simplesmente nos entreter durante algumas horas.


Inspirado pelo filme dentro do filme O Pânico em Florida Beach, de Joe Dante, que analisei no episódio da semana passada, resolvi desenterrar um clássico do passado longínquo da década de cinquenta que me visitou nalguns pesadelos em miúdo. No filme de Dante John Goodman interpretava Lawrence Woosley que promovia o filme de terror MANT prometendo uma criatura meio-homem, meio-formiga, fruto de radiações atómicas. Esta é uma referência óbvia aos filmes de monstros que se celebrizaram em plena guerra fria, no auge do medo da bomba atómica dos quais O Mundo em Perigo, Them! no original, é um dos mais célebres exemplos. A década de cinquenta é uma década de ouro deste tipo de filmes que, depois dos monstros góticos celebrizados pela Universal na década de trinta, encontrou na ameaça atómica e na exploração espacial a fonte de um novo tipo de terror. 

Estas eram produções populares dos grandes estúdios de Hollywood, antes de se tornarem artefactos camp de uma era inocente e darem origem a sub-produtos oriundos de produções independentes que exploravam o choque e o lado bizarro do género. Títulos como Os Sentenciados, A Ameaça, O Monstro dos Tempos Perdidos, Tarântula, A Aranha Gigante, Fluido Mortal, A Mosca, O Monstro da Lagoa Negra, O Dia em Que a Terra Parou, Vieram do Espaço ou A Guerra dos Mundos são exemplos, todos da década de cinquenta, que demonstram a abundância de títulos deste género produzidos nesta altura.

O Mundo em Perigo é uma produção da Warner Bros. realizada por Gordon Douglas. Inicialmente planeada em 3D foi finalmente filmado a preto & branco depois de alguns testes estereoscópicos falhados. Nele, um ninho de formigas gigantescas é descoberto no deserto do Novo México e rapidamente é declarada uma ameaça nacional quando se descobre que uma jovem formiga rainha e os seus consortes escaparam para estabelecer um novo ninho. A pesquisa nacional que se segue culmina numa batalha travada nas condutas de esgoto de cimento em Los Angeles. Como disse no princípio desta análise a imagem destas formigas gigantes visitou-me nos meus pesadelos de infância. Não me lembro exactamente de quando terei visto este filme, ou até se terá sido este ou outro parecido, mas recordo-me vivamente de não ter idade suficiente para discernir totalmente a verdade da ficção e de ser positivamente aterrorizado pelo som estridente que anuncia a proximidade da ameaça e pela imagem de pessoas em pânico presas nas mandíbulas dos insectos gigantes.

Ao ver o filme agora o surpreendente é que, apesar dos insectos serem nitidamente um boneco controlado por operadores marionetistas escondidos da câmara, há uma construção eficiente do mistério, nomeadamente na primeira parte, com o aparecimento misterioso de uma criança em estado de choque no deserto e com a descoberta de uma vítima nas redondezas. É o mistério por detrás destes eventos que motiva a primeira parte do filme, até à chegada de uma dupla de cientistas e de um agente federal para ajudar nas investigações. A partir do momento em que a causa é determinada e o governo avisado O Mundo em Perigo desenha uma ameaça à escala global ao mesmo tempo que enceta uma corrida contra o tempo na tentativa de salvar duas crianças desaparecidas, tornando o drama palpável a um nível pessoal. 

O Mundo em Perigo foi um sucesso à data de estreia, tanto a nível comercial como crítico e é, ainda hoje, altamente satisfatório para qualquer fã de ficção e de premissas fantásticas. Um objecto de outra era, é certo, mas que povoa o imaginário de quem ainda hoje questiona os limites da realidade e abraça as possibilidades da imaginação. 

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