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Entrevista a Gale Anne Hurd, uma mulher notável no terror

Entrevista a Gale Anne Hurd, uma mulher notável no terror

Gale Anne Hurd é a convidada de honra do MOTELX 2025, e a primeira homenageada com o novo Prémio Noémia Delgado para Mulheres Notáveis no Terror. A lendária produtora marcará presença em sessões especiais da versão do realizador de Aliens: O Recontro Final (Aliens, James Cameron, 1986) e Palpitações (Tremors, Ron Underwood, 1990) — duas obras fundamentais do cinema de género — nas quais fará introduções exclusivas. Em antevisão da sua presença no festival, tivemos oportunidade de falar com Gale Anne Hurd num exclusivo Universos Paralelos/Segundo Take.

Gale Anne Hurd e Linda Hamilton na rodagem de O Exterminador Implacável (The Terminator, James Cameron, 1984)

Transcendendo epítetos como “mulher de armas”, e outros tantos lugares-comuns que descrevem mulheres em papéis normalmente desempenhados por homens, Gale Anne Hurd  continua a ser, há mais de quarenta anos, uma produtora fulcral no moldar do cinema norte-americano de género. Títulos como O Exterminador Implacável (The Terminator, 1984), e a sequela Exterminador implacável 2 - O dia do julgamento (Terminator 2: Judgment Day, 1991), Aliens: O Recontro Final e O Abismo (The Abyss, 1989), numa frutífera colaboração com James Cameron, colocaram-na no mapa com títulos que levaram o terror e a ficção científica ao grande público e que parecem ainda ressoar mais hoje em dia do que propriamente à data de estreia.

“Sabes, há uma coisa engraçada. Alguém me disse que eu tenho a inteligência senciente, o que que é uma benção e uma praga. É uma benção porque podes prever o que pode acontecer, e é por isso que adoro ficção científica. Penso que autores e criadores de ficção científica não são reconhecidos o suficiente por anteciparem o futuro, por iluminarem o mundo do futuro, e como precisamos ser cuidadosos e conscientes de para onde as coisas podem evoluir e como podem descarrilar. Então, voltando a Tech Noir e a ‘O Exterminador Implacável’, nós chamámos ao clube nocturno Tech Noir porque queríamos chamar a atenção para o lado obscuro da tecnologia. Eu e o Jim sempre nos preocupámos com isso, e continua a estar presente no nosso trabalho, mesmo não trabalhando mais juntos.”

O amor pelo cinema começou muito cedo. A sua primeira memória de maravilhamento em frente a um grande ecrã foi com Mary Poppins (Robert Stevenson, 1964), e pouco depois, aos dez anos de idade, apaixonou-se pelo trabalho de Ray Harryhausen numa sessão-dupla de Os Argonautas (Jason and the Argonauts, Don Chaffey, 1963) e A Nova Viagem de Sinbad (The Golden Voyage of Sinbad, Gordon Hessler, 1973). Foi nos cinemas de drive-in que Gale Anne Hurd teve o seu primeiro contacto com Roger Corman, de quem seria assistente no início de carreira. Depois de promovida a responsável pelo marketing da New World Pictures, saiu do escritório para o local de filmagens, onde recomeçaria do zero como assistente de produção. Naquela que foi uma escola que germinou muito talento em diversas áreas para a indústria norte-americana, a futura produtora aprendeu algumas lições valiosas.

Os Argonautas (Jason and the Argonauts, Don Chaffey, 1963)

“Penso que há tantas lições para aprender de alguém como Roger Corman. Uma das mais importantes foi o valor da pré-produção. É o tempo menos dispendioso que podes gastar num projeto. E tão importante, porque muitos dos problemas que podes encontrar, podes resolver se trabalhaste bastante durante a pré-produção. E também aprendi que, no final do dia, há múltiplas maneiras de resolver problemas. E o mais importante é o foco nas soluções, e não o apontar de dedos. ‘Por estamos nesta situação? Quem é o responsável?’ É apenas uma perda de tempo. E outra lição é que fazer filmes é um ‘desporto de equipa’. Todas as pessoas que trabalham no plateau, atrás das câmaras e no escritório são importante para a produção; devemos tratá-las sempre com respeito e devemos agradecer o seu trabalho e o seu contributo.”

Um dos colaboradores com quem trabalhou repetidamente foi Stan Winston, o mago dos efeitos especiais e caracterização, infelizmente desaparecido cedo demais.

“Que perda, perdê-lo tão jovem. Era absolutamente essencial. Precisas de alguém que não só saiba desenhar criaturas interessantes mas também que a forma vem depois da função. Ele começava sempre com ‘O que é essa personagem?’ — porque, sim, é uma personagem — ‘O que precisa fazer? O que a motiva? E o que é que precisamos de ver no ecrã?’ E partia daí.”

Stan Winston na rodagem de Exterminador Implacável 3 - Ascensão das Máquinas (Terminator 3: Rise of the Machines, Jonathan Mostow, 2003)

© 2003 IMF Internationale Medien und Film GmbH & Co. 3 Produktions KG

Gale Anne Hurd revela ainda a resistência que encontrou para contratar um inexperiente Winston para O Exterminador Implacável, o filme que não só beneficiaria do seu trabalho icónico, como definiria a sua carreira.

“E o interessante é que quando estávamos a tentar fazer ‘O Exterminador Implacável’, a empresa seguradora — num filme independente, precisavas de um seguro que garantisse que filme seria terminado dentro do plano e do orçamento — não aceitava o Stan Winston como o artista de efeitos especiais de caracterização, porque ele não tinha experiência. Insistiram que falássemos com Dick Smith — um dos grandes, absolutamente. E foi ele quem nos indicou o Stan Winston. Ele disse: ‘Eu não bom nisto, eu sou bom com caracterização. O Stan pode fazer ambos. Pode criar as criaturas, pode operá-los no plateau, com a sua equipa.’ Mas Dick teve de se comprometer com a empresa financiadora de que, se houvesse algum algum problema com Stan Winston, tomaria as rédeas.”

Esta é apenas uma das inúmeras histórias de terror no que diz respeito ao eterno braço de ferro entre o talento artístico e os mecenas com dinheiro para o financiar. Outro exemplo são as temíveis exibições de teste a que muitos filmes são sujeitos. Estas exibições muitas vezes acontecem antes de o filme estar acabado e são realizadas antes do lançamento oficial. O filme é mostrado a um público selecionado para recolher reacções e opiniões. Essas opiniões muitas vezes influenciam mudanças na edição, no final do filme ou em outros elementos, e a opinião da produtora em relação a este processo é inequívoca.

“Eu odeio [exibições de teste]. O que eu acho importante são as exibições de família e amigos. Porque nesse caso não existem pontuações. E não tens que ouvir os executivos a dizer-te o quão horrível é o teu filme. Nas exibições de família e amigos podes falar com as pessoas. Quando estás sentado no fundo de uma sala de cinema consegues perceber se as pessoas estão inquietas, ou a olhar para os relógios, ou se se levantam para ir buscar pipocas… o que não não os está a envolver. Podes perceber se um momento aterrorizante não funciona porque ninguém salta da cadeira. Ou se o humor não resulta porque ninguém está a rir. Então eu acho muito importante não só ver o filme com a equipa que colaborou na sua produção, mas também com pessoas que não sabem nada sobre a história, a trama ou as personagens. Mas eu não quero pontuações.”

À pergunta se queria partilhar algum título prejudicado pelo processo de exibições de teste, declinou respeitosamente. Já quando lhe foi pedido que partilhasse uma das suas produções que considera subvalorizada, e que gostaria que fosse mais conhecida, a resposta de Gale Anne Hurd foi duplamente inesperada. Primeiro, porque é um título produzido para a televisão, depois porque aprendemos algo que desconhecíamos: o realizador desse filme esteve na calha para realizar um dos seus maiores blockbusters, e uma obra que não imaginamos na mão de mais ninguém que não do James Cameron.

Um Feitiço de Morte (Cast a Deadly Spell, Martin Campbell, 1991)

“É engraçado porque eu esperava exibir [no MOTELX] um filme que produzi para a HBO, ‘Um Feitiço de Morte’ [Cast a Deadly Spell, 1991]. E porque foi na televisão, acho que é um pouco mais difícil de conseguir uma cópia. Mas foi escrito por escritor chamado Joe Dougherty e realizado por Martin Campbell. Foi a minha primeira colaboração com ele antes de ‘Fuga de Absolom’ [No Escape, 1994]. Jim Cameron e eu tínhamos visto a mini-série ‘Edge of Darkness’, enquanto filmávamos ‘Aliens’. E, acreditem ou não, antes de o Jim decidir realizar a sequela de ‘O Exterminador Implacável’, considerámos Martin como o possível realizador para ‘Exterminador implacável 2’. O filme é interpretado pelo Fred Ward, pelo que há uma conexão com ‘Palpitações’, e também uma jovem Julianne Moore, no que foi o seu primeiro papel principal num filme, acho eu. É uma história de detetives, num mundo Lovecraftiano, uma Los Angeles alternativa, onde os vampiros e os lobisomens existem.”

Além do terror, Gale Anne Hurd partilha com a autora portuguesa que dá o nome ao novo Prémio Noémia Delgado para Mulheres Notáveis no Terror, do qual será a primeira recipiente, o interesse pelos documentários etnográficos. Desde 2002, produziu quatro obras de não-ficção, sendo três delas sobre os povos indígenas da América do Norte da autoria de Valerie Red-Horse: True Whispers (2022), Choctaw Code Talkers (2010) e Mankiller (2017).

“Adoro serem histórias verdadeiras. E os três documentários que fiz sobre os nativos americanos têm o mesmo tema: pessoas normais empurradas para circunstâncias extraordinárias que encontram a coragem e o poder dentro delas mesmas. No caso dos locutores de código Navajo e Choctaw, ajudaram as forças aliadas a vencer as guerras, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, e ainda assim não são reconhecidos. E os códigos foram mantidos em segredo por muitos anos. E a minha terceira, sobre Wilma Mankiller, a primeira mulher eleita como chefe de uma grande tribo americana, é a história de alguém que há oito anos era uma sem-abrigo a morar no automóvel com as duas filhas jovens em terras tribais Cherokee, e oito anos mais tarde foi eleita como a chefe principal da tribo. Essas histórias são muito importantes para mim. O meu quarto documentário, ‘The YouTube Effect’ [Alex Winter, 2022], é sobre o perigo das plataformas de media social, e como elas podem ser usadas para nos dividir e radicalizar.”

Curiosos se esta seria a primeira vez da produtora em Lisboa, Gale Anne Hurd revelou que já se sente à vontade na nossa capital.

“Eu tenho um apartamento em Lisboa. Já o tenho há quatro anos…”

Não percam a oportunidade de conhecer Gale Anne Hurd no MOTELX consultando a programação do festival em www.motelx.org.

Este é apenas um excerto de uma conversa mais longa com Gale Anne Hurd. Para mais histórias e revelações, não percam o episódio de Outubro do Universos Paralelos em www.universosparalelos.net ou no YouTube.

Adaptação de Stephen King é filme de abertura da 19ª edição do MOTELX

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