Episódio #19 - Vinyl / Casino

Para cumprir o lançamento deste episódio no dia habitual estou a gravá-lo antes da cerimónia da entrega dos Oscares. Para quem está a ouvir isto logo na segunda-feira de lançamento a cerimónia ainda está a decorrer, ou acabou recentemente, dependendo da hora. Vou mesmo assim arriscar um comentário e dizer que lamento que Mad Max: Estrada da Fúria não tenha sido reconhecido pela Academia como o acontecimento cinematográfico de 2015. É verdade que, de todos os candidatos a Oscar de melhor filme, só vi este e A Ponte dos Espiões mas se isso não impede os membros da Academia de votar também não me impedirá a mim de opinar. É impossível evitar estas cerimónias, independentemente da nossa opinião sobre a qualidade ou relevância das mesmas mas, a não ser que ocorra alguma surpresa digna de comentário, esta é para já a minha palavra final sobre este tema.

Errata: Neste episódio precipitei-me e antecipei a data de entrega dos Oscares. Como fiz futurologia penso que não foi grave mas mesmo assim fica aqui a correcção.


Gostaria de partilhar convosco uma descoberta que fiz, com a ajuda de João Lopes e do seu blog Sound+Vision: o Cinema Ideal, no bairro alto em Lisboa, está a exibir esta semana dois filmes documentais do realizador chileno Patricio Guzmán: Nostalgia da Luz e O Botão de Nácar. Não conhecia sequer o autor mas os trailers dos filmes impeliram-me imediatamente a procurá-los tendo entretanto visto Nostalgia da Luz. Neste filme Guzmán procura reflectir sobre o passado recente do Chile, nomeadamente sobre quem ainda hoje procura no deserto de Atacama os corpos desaparecidos dos seus familiares vítimas do regime de Pinochet, num paralelismo muito interessante com o olhar sobre o passado que nos chega do espaço sideral que os astrónomos fazem no mesmo deserto. A reconciliação com o passado premeia esta obra que questiona algumas das nossas percepções sobre o tempo e expõe uma ferida da história chilena, mas universal porque humana, que muitos preferiam ver esquecida ao invés de sarada. O Botão de Nácar, que ainda não vi, parece ser um prolongamento desta busca, desta vez com a água como elemento central, última morada de muitas vítimas despejadas no mar de um dos países com maior extensão costeira que existe.

Procurem a programação do Cinema Ideal e não percam esta oportunidade.


Martin Scorcese é uma autêntica lenda viva. Fruto do movimento autoral do cinema americano dos anos 70, conhecido como brat pack, viveiro de cineastas como Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, George Lucas, William Friedkin ou Brian De Palma, é um cineasta que continua relevante, ao contrário de alguns destes nomes. Mesmo depois de obras-primas relativamente indiscutíveis como Cavaleiros do Asfalto, Taxi Driver, Touro Enraivecido ou Tudo Bons Rapazes, cada projecto de Scorcese tem o seu motivo de interesse. Ora vejamos: seja um épico histórico como Gangsters de Nova Iorque, um filme assombrado como Por Um Fio, um policial de mistério popular como Sutter Island, um filme de prestígio como The Departed - Entre Inimigos, um biopic de época como O Aviador, um filme juvenil em 3D como A Invenção de Hugo, um documentário musical  sobre os Rolling Stones como Shine a Light ou a exposição do capitalismo ganancioso de O Lobo de Wall Street, Scorcese tem demonstrado uma diversidade e uma vitalidade que transbordou para o pequeno ecrã, primeiro com Boardwalk Empire e agora com Vinyl.

Em Vinyl Martin Scorcese junta-se a Mick Jagger, lendário vocalista dos Rolling Stones, e a Terrence Winter, argumentista de O Lobo de Wal Street e co-criador de Boardwalk Empire, para voltar a Nova Iorque dos anos 70 e contar uma história recheada de sexo, drogas e rock & roll que, sendo ficcionada, incorpora situações e personagens reais para retratar o universo discográfico de uma das últimas décadas analógicas onde a música era gravada em vinil e fitas magnéticas e o sucesso de uma banda passava tanto pelo contrato discográfico como pelo airplay concedido pelas rádios. Esta é a minha reação ao primeiro episódio da série, realizado pelo próprio Martin Scorcese.

Bobby Cannavale é Richie Finestra, a personagem central, fundador e presidente da empresa discográfica American Century Records. O momento em que conhecemos Richie é de crise. Não só está a tentar vender a sua empresa à beira da banca rota aos alemães da Polygram, como o seu estilo de vida começa a incompatibilizar-se com a sua vida familiar. A juntar a isto, debate-se com um segredo do passado que lhe pesa na consciência. No meio deste turbilhão encontramos um Scorcese como peixe em água. O ritmo é frenético e os muitos momentos musicais são verosímeis e captados com um apurado sentido de espectáculo. A reconstituição da época é eficiente e Nova Iorque volta a parecer um lugar sujo e pouco seguro. Mick Jagger prometeu  incorporar na série eventos pessoais e, neste episódio piloto, cruzamos-nos com Robert Plant e os seus Led Zeppelin. Este diálogo constante entre a ficção e a realidade promete muito para os episódios futuros.

Esta é uma série para amantes de música e para os nostálgicos. Há um certo elemento melómano e de paixão verdadeira no tratamento deste material. Uma espécie de Quase Famosos mas com o verniz romântico estalado. Sendo um projecto da HBO o sexo e as drogas não são apenas sugeridos mas sim elemento explícito desta realidade. E, com Scorcese ao leme, logo no arranque temos elementos de crime que, por certo, farão parte integrante da série. Apesar disto parece-me que Vinyl vai agradar em primeira instância a quem tem na música uma paixão e teve colecções de discos em vinil, ou fazia compilações em fitas magnéticas ou mesmo quem já encontrou momentos de transcendência numa plateia de um concerto de rock, tanto na variante tradicional como nas muitas formas que este estilo tomou.

A minha expectativa é elevada. Não me lembro de pensar que fazia falta uma série sobre a indústria musical nos anos setenta mas depois deste primeiro episódio de Vinyl mal posso esperar pelo momento semanal em que vou acompanhar Richie na sua tentativa de sobreviver a um mundo em ruínas, figurativamente e literalmente, mas também na sua paixão pelos sons que alguns iluminados conseguem produzir com os seus instrumentos musicais.


Ao pensar em Martin Scorcese na semana que antecede os Oscares lembrei-me de Casino. Porque foi largamente ignorado pela Academia - foi nomeado apenas na categoria de Melhor Actriz Secundária para a interpretação de Sharon Stone - mas, especialmente, por ser um título pouco lembrado na hora de falar da filmografia do seu realizador. Provavelmente pela sua proximidade com Tudo Bons Rapazes: cinco anos apenas separam as duas produções tematicamente muito semelhantes, repetindo o autor do livro de base, Nicholas Pileggi, que também co-escreveu o argumento com Scorcese em ambos, e repetindo os seus dois actores principais, Robert de Niro e, mais notoriamente, Joe Pesci a repetir a interpretação de uma personagem imprevisível e violenta. Casino será sempre avaliado neste contexto e, para ser honesto neste contexto será sempre um Tudo Bons Rapazes Redux.

Mas é pena pois Casino é mais uma fascinante e épica viagem aos meandros da vida criminosa, neste caso focando-se no controlo da Máfia de Chicago sobre um Casino em Las Vegas através da gestão na sombra por um dos seus cúmplices. Pileggi e Scorcese ficcionam acontecimentos reais transformando Frank “Lefty” Rosenthal em Sam “Ace” Rothstein, interpretado por Robert de Niro, e Anthony Spilotro em Nicky Santoro, interpretado por Joe Pesci. Sharon Stone encarna Ginger McKenna, a mulher de Sam, baseada em Geri McGee.

Scorcese utiliza as suas técnicas habituais para um primeiro acto electrizante envolvendo-nos na mecânica do funcionamento do esquema mafioso através de narrações em off, longos planos sequência em movimento, edição ritmada e diálogos em fogo-rápido. Quando o ritmo abranda e a narrativa propriamente dita arranca fomos totalmente seduzidos, não pelo conteúdo mas pela forma narrativa com que o estilo de vida nos é apresentado onde a violência e o crime coabitam naturalmente com a vida doméstica e um conjunto próprio de valores que estas personagens definem para justificar os seus actos.

A história, mais uma interpretação da falência do sonho americano, é intrincada e obriga a alguma atenção se não quisermos perder nenhum pormenor dos acontecimentos, mas o que para mim está no cerne de Casino, como em muitas obras de Scorcese, é a dinâmica das personagens e a natureza das suas interações. A qualidade das interpretações é fulcral para o sucesso das cenas onde o subtexto é tão importante como aquilo que é dito e as fidelidade estão sempre em jogo. 

Um exemplo da dinâmica entre os actores é a relação entre Sam e Ginger, duas personagens ambiciosas mas com diferentes agendas que embarcam numa relação auto-destrutiva assente nos frutos que cada um espera colher para proveito próprio ao invés de uma real paixão ou mesmo respeito. Sharon Stone impressiona no papel de uma mulher confiante e independente mas com uma relação de co-dependência que funciona como rastilho do seu casamento de conveniência com Sam.

Casino é também, em última instância, um conto moral onde as personagens encontram consequências violentas para os seus actos ou simplesmente são castigadas com a temida banalidade, pior que a prisão para quem tinha sonhado com o topo de mundo, demonstrando mais uma vez que, por muito glamorosa que possa parecer, a vida de crime acaba sempre em justa retribuição.

Episódio 19.5 - Errata ao Episódio #19

Episódio #18 - Um Amor Inevitável / Quem Tem Medo de Virginia Woolf?