Episódio #18 - Um Amor Inevitável / Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Um Amor Inevitável é o título português de When Harry Met Sally, um filme de 1989 que, para os mais desatentos, pode aparentar ser apenas mais uma das muitas comédias românticas padronizadas que Hollywood produz anualmente. Mas um olhar mais cuidado revela-nos uma pérola escrita por Norah Ephron, baseada livremente em experiências próprias e do realizador Rob Reiner. Este é o original de onde todos os sucedâneos produzidos actualmente originaram. Um Amor Inevitável é uma comédia romântica adulta com verdadeiro humor e personagens de carne e osso que definiu o padrão do que seriam as comédias românticas, boas e más, a partir de então.

Harry, interpretado por Billy Crystal, e Sally, Meg Ryan num dos seus mais populares papéis, conhecem-se quando viajam juntos de Chicago até Nova Iorque, acabados de sair da universidade. Ao princípio as suas personalidades entram em choque e apenas se encontram em Nova Iorque esporadicamente e casualmente nos próximos 12 anos. Após experiências amorosas falhadas ambos acabam por encontrar conforto na amizade que entretanto desenvolvem.

Um Amor Inevitável beneficia do olhar maduro dos seus autores que aceleram os eventos temporalmente para reunir as personagens numa fase da sua vida em que ambos tiveram diferentes experiências e relacionamentos e onde a impetuosidade da juventude foi substituída por uma tranquilidade e melancolia que lhes permite a aproximação sem a tensão dos encontros iniciais. Sally, a romântica e idealista dos dois, apostou numa relação com expectativas trocadas e Harry, o cínico e pessimista, foi abandonado por uma mulher que amava. Contrariando a sua convicção de que um homem e uma mulher não podem ser amigos encontra em Sally uma alma gémea com quem sente uma proximidade diferente daquela que sente com os amigos homens. Mas, o que poderá significar esse sentimento?

Os diálogos entre Harry e Sally, e entre estes e os respectivos melhores amigos, são a mais valia deste filme que nos proporciona alguns momentos icónicos e intemporais. Além da mencionada questão "Podem os homens e mulheres ser apenas amigos?", outras ideias universais sobre relações são discutidas como o conceito de namoradas de alta-manutenção, relações de transição ou o protocolo de comportamento para o dia posterior a uma noite de sexo. Mas o momento mais popular e lembrado deste filme é mesmo a conversa em público sobre a simulação de orgasmos femininos que leva à inesquecível performance de Meg Ryan numa demonstração cabal da possibilidade de Harry, ao contrário da sua convicção, nem sempre ter sido bem sucedido no seu desempenho sexual.

Vale a pena referir o dispositivo formal em que o filme é enquadrado com entrevistas reais a casais maduros que falam sobre as suas experiências pessoais, recordando as circunstâncias dos seus primeiros encontros. É uma visão optimista e universal que mostra diferentes histórias de amor duradouras, onde cada casal tem a sua própria versão do encontro perfeito ao invés de um qualquer conto de fadas normalizado. Cada história é uma história e cada um de nós pode ter o "seu" romance perfeito. 

A completar a experiência Um Amor Inevitável tem uma banda sonora recheada de clássicos e standards de jazz, por artistas tão variados como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Ray Charles ou Frank Sinatra. Harry Connick, Jr., estrela em ascensão na altura, interpreta uma selecção destas músicas na edição oficial da banda sonora. Este é um óptimo álbum de entrada para jazz vocal e foi o primeiro CD que comprei quando, algures no princípio dos anos noventa, os meus pais finalmente me compraram um sofisticado e novíssimo, na altura, leitor de CDs.

Se tiverem algum tipo de preconceito com o género de comédia romântica ponham-no de lado e desfrutem deste verdadeiro clássico moderno.


Quem Tem Medo de Virginia Woolf? não é uma escolha alinhada com o ideal do Dia dos Namorados. Uma celebração fabricada em função das expectativas românticas das relações amorosas, sejam elas adolescentes ou adultas. Aquele ideal que enfeita o amor de tons de rosa e promete eternos estados de graça e finais felizes, que não vai além do verniz do ego serenado pela ilusão da posse e pertença, que não se confronta com a necessidade de entrega, compromisso, respeito e dedicação.

Em Virginia Woolf, para abreviar, Mike Nichols assina em 1966 a sua estreia na realização cinematográfica, depois das suas experiências na comédia, como actor e encenador teatral. Colaborando com o lendário director de fotografia Haskell Wexler filma a preto & branco a adaptação de uma peça de teatro do autor Edward Albee onde um casal amargo de meia-idade, Martha e George interpretados pelo, na altura, casal de superestrelas Elizabeth Taylor e Richard Burton, usam um casal mais novo, Nick e Honey, para, com a ajuda de muito álcool, infligirem-se mutuamente de angústia e dor emocional, arrastando-os para os seus jogos de insultos e abusos verbais onde o papel de vítima e culpado é alternadamente partilhado.

Convém deixar desde já o aviso. Virginia Woolf é uma experiência desgastante e opressiva. É implacável no uso da palavra como arma de arremesso e o facto de se passar em apenas uma noite, entre dois locais físicos, num preto & branco de alto contraste, intensifica o seu cariz claustrofóbico onde somos espectadores passivos de uma constante descida aos infernos do desrespeito, desdém e pura malícia. Além disto o estilo de Nichols, na maior parte do tempo académico dada a natureza teatral do material, usa a espaços movimentos de câmara para acentuar a vertigem e a urgência do confronto, chegando inclusive a perder a focagem em momentos de grande plano em movimento de forma a capturar a intensidade das interpretações.

Numa altura em que privilegiamos a subtileza e o "menos é mais" no que respeita a interpretações, Virginia Woolf pode parecer datado e algo cabotino mas perante o material e as emoções que são dadas a explorar aos actores, Taylor e Burton dão corpo e alma a estas personagens horríveis que, mesmo assim, conseguem provocar a espaços a nossa simpatia e compreensão. Elizabeth Taylor, como Martha, é tão eficaz nas cenas de abuso condescendente e sadismo como nas mudanças imperceptíveis onde revela ternura ou sucumbe à vulnerabilidade exausta da relação de anos com George. Richard Burton é igualmente impressionante neste papel, um professor imperfeito e submisso que finalmente verga aos abusos e contra-ataca furiosamente com requintes de malvadez, arrastando Nick e Honey para o olho do furacão através de uma série de inconfidências que desmascaram algumas das verdades sobre o seu casamento expondo tensões íntimas do casal.

Talvez o elemento mais enigmático da narrativa seja a referência ao filho de Martha e George, fonte de conflito entre os dois, que se irá revelar como peça fundamental dos seus jogos, não só de manipulação e insulto mas também de construção de uma realidade virtual que, ao misturar-se e baralhar-se com as tensões e vivências reais, os revela como personagens trágicas que seguem um guião de vida desenhado pelos próprios e ao qual não parece haver alternativa por vontade própria.

Comecei por dizer que Quem Tem Medo de Virginia Woolf? não era um filme alinhado com o Dia dos Namorados, mas se calhar estava errado. Este pode ser um abrir de olhos e o momento decisivo da vida de um futuro casal.