Episódio #15 - Anomalisa / Labirinto

Charlie Kaufman é um dos meus autores de eleição. Para tal bastou um triunvirato de filmes: Queres Ser John Malkovich e Inadaptado, ambos de Spike Jonze, e o ainda mais genial O Despertar da Mente, de Michel Gondry. Com uma voz única e original lida através da escrita com as suas próprias inseguranças, frustrações e neuroses, numa constante reflexão interior sobre a existência e a identidade. As suas personagens, muitas vezes envolvidas consigo próprias, são o reflexo da sua demanda. Ao contrário do habitual são personalidades com problemas de estima, à procura de rumo e sentido, navegando num limbo entre a genialidade e a loucura e invariavelmente com problemas de relacionamento com o sexo oposto.

Jonze e Gondry revelaram-se excelentes colaboradores oferecendo um contraponto, cada um ao seu estilo particular, à verve neurótica de Kaufman, controlando as suas ideias nas delineações dos seus universos respectivos. Quando Kaufman se estreia na realização em 2008 com Sinédoque, Nova Iorque, o resultado foi um épico pessoal e extremamente ambicioso e denso. Caden Cotard, interpretado por Philip Seymour Hoffman, na sua demanda pela genialidade, encena a sua própria vida num jogo de espelhos que dilui as fronteiras, tanto entre o palco e a vida como entre o real e o imaginado.

Chegados a Anomalisa o elemento surpreendente não é temático mas sim formal. Se tematicamente navegamos em águas conhecidas, em termos de forma encontramos Kaufman a colaborar com o animador e realizador Duke Johnson numa animação stop-motion para dar vida a esta história. O que parece um capricho de virtuosismo é, afinal de contas, vital para o sucesso de Anomalisa. Ao vermos o mundo através dos olhos de Michael Stone, interpretado por David Thewlis, vestimos o pele dum homem a lidar com uma depressão e com um tal desligamento social que todas as pessoas lhe parecem e soam iguais, incluindo a ex-namorada Bella que contacta na sua viagem de um dia a Cincinnati para uma conferência sobre o seu novo livro, ou mesmo a sua mulher e o seu filho. Todas estas personagens são interpretados por Tom Noonan, numa opção que a princípio desconcerta, mas que depois de assimilada proporciona o estado de espírito ideal para a abordagem a esta história.

Quando Michael conhece Lisa, interpretada por Jennifer Jason Leigh, e esta revela ter uma voz própria, no sentido em que é distinta da de todas as outras pessoas, pensa ter encontrado a elusiva cara-metade que trará algum brilho à sua existência. A sua personalidade extrovertida mas consciente de si própria revela a fragilidade da solidão mas também um querer que a leva a abraçar a oportunidade de ser feliz, nem que por apenas um momento. É nesta relação central que assenta a complexidade e o fulcro de Anomalisa. O que à primeira vista pode parecer uma fantasia sobre o desejo masculino onde a mulher existe apenas como catalisador da sua iluminação é na realidade a exploração de uma teia muito humana de desejos, vontades, projecções e vulnerabilidades que resulta num momento de ligação emocional e sexual que, ao ser protagonizado por bonecos, amplia o constrangimento e naturalidade de momento tão íntimo e humano.

Michael rapidamente sucumbe à sua paranóia e, à luz do dia, deixa de conseguir discernir o que distingue Lisa do resto das pessoas, voltando ao padrão de alienação e auto-comiseração onde se vê como superior a quem o rodeia acreditando, inclusive, que é venerado por qualquer pessoa com quem se cruza. Não é por acaso que Kaufman chama ao hotel onde decorre a acção Fregoli. A Síndrome de Fregoli é o nome de uma condição na qual uma pessoa acredita que uma ou mais pessoas que lhe são familiares, normalmente perseguidores, repetidamente modificam a sua aparência e são uma e a mesma pessoa. O irónico é que, na sua palestra, Michael ensina a olharmos os outros como indivíduos, quando ele próprio não o consegue fazer.

Anomalisa não é uma viagem de descoberta de Michael. A sua luta com o mundano do dia-a-dia, ou a angústia do vazio provocado pela ausência do sublime continuará. E é quando saímos da sua cabeça, numa das cenas finais, e vemos Lisa e a sua amiga como pessoas distintas, com identidades e personalidades próprias, para quem o encontro com Michael foi mais uma experiência de vida enriquecedora e não destrutiva, percebemos que o que acabámos de assistir foi um vislumbre alienado, e por vezes assustador, de alguém que luta diariamente, e perde, a batalha com os seus demónios.


Ainda a processar o desaparecimento de David Bowie decidi recuperar um filme indissociável da sua memória e um daqueles filmes de infância que sempre estiveram presentes sem que nunca o tivesse visto. Falo de Labirinto, realizado por Jim Henson em 1986.

Gostaria primeiro de falar brevemente sobre David Bowie, o camaleão da música popular e uma figura que, independentemente do nosso nível de envolvimento pessoal, parecia perene tal a importância indiscutível do seu estatuto no que respeita à cultura popular do final do século XX e do virar deste para o novo milénio. Nunca conheci a sua música além dos singles clássicos e best-ofs mas enquanto interessado em tudo o que faz parte da cultura audiovisual tinha-o por uma referência maior do que significa ser um visionário e definidor de tendências. Alguém que, ao encarnar variadas personagens em nome da sua arte, inspirava os outros no sentido da expressão pessoal e libertação de tabus sem nunca se expôr pessoalmente.

Das suas incursões como actor as que me são mais familiares são Fome de Viver, a estreia nas longas-metragens de Tony Scott em 1983, e The Prestigie - O Terceiro Passo filme de 2006 de Christopher Nolan que merecia ser mais visto. Mas outros títulos muitas vezes referenciados são O Homem Que Veio do Espaço, de Nicolas Roeg, Feliz Natal Mr. Lawrence, de Nagisa Ôshima e A Última Tentação de Cristo de Martin Scorcese, já para não falar em Labirinto de que aqui falo. Curiosamente um dos filmes que melhoram captam a pulsão dos anos 70 e da sua crescente popularidade é um filme onde o seu nome não é sequer referenciado mas que nitidamente o homenageia tomando-o como principal inspiração: Velvet Goldmine, de Todd Haynes.

Labirinto é um filme do criador d’Os Marretas, Jim Henson e co-produzido por George Lucas. David Bowie interpreta Jareth, o Rei dos Goblins que rapta o irmão bebé de Sarah, uma adolescente Jennifer Connely, que terá de atravessar o labirinto do título para recuperar o seu irmão. Além de Bowie e Connely todos os restantes personagens são marionetas produzidas pela Jim Henson's Creature Shop.

Labirinto inspira-se num conjunto de obras fantásticas, algumas referenciadas numa cena que mostra a prateleira dos livros de Sarah: O Maravilhoso Feiticeiro de Oz de L. Frank Baum, Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol e Onde Vivem os Monstros de Maurice Sendak parecem ser inspirações óbvias para este universo complementado pela música original de David Bowie que ocasionalmente presenteia a sua corte de criaturas com números musicais onde passeia com grande coragem o revelador figurino que é tão deliciosamente anos 80 e que ao mesmo tempo mantém o equilíbrio delicado entre o sublime e o ridículo.

Jennifer Connely, com quinze anos na altura e tendo já nesta idade trabalhado com nomes como Sergio Leone e Dario Argento, consolida aqui os primeiros passos da sua carreira neste filme intemporal e icónico, a impertinência da adolescência das cenas iniciais a darem lugar a uma personagem merecedora da nossa cumplicidade, revelando uma personalidade tolerante, inteligente e decidida, conseguindo o afecto dos seus recentes aliados Hoggle, Ludo e Sir Didymus na busca do irmão.

Curiosamente Labirinto não foi um sucesso à data de estreia, facto que desanimou o seu criador Jim Henson que nunca mais realizou uma longa-metragem. Acontece que este filme envelheceu bem e é um bom entretenimento para pais e filhos merecendo o seu estatuto de relativo culto que adquiriu ao longo dos anos. Não será o trabalho mais representativo de David Bowie mas qual será? Numa carreira tão diversa este é mais um momento digno de nota no mosaico daquele que terá sido um dos artistas mais influentes e ao mesmo tempo respeitados de que há memória.

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