Episódio #14 - O Desaparecimento de Eleanor Rigby

O Desaparecimento de Eleanor Rigby é um projecto que me chamou a atenção desde o primeiro dia em que ouvi falar nele. Apesar do título sugerir uma história de mistério esta é um estudo sobre o comportamento humano, especialmente no que respeita à forma como dois elementos de um casal reagem a certos acontecimentos marcantes da sua relação. Sempre me interessaram obras que exploram a percepção e de como a experiência particular de cada indivíduo molda o seu ponto de vista e constrói as suas verdades. Muitos filmes exploram este tema, com mais ou menos artifício. O Desaparecimento de Eleanor Rigby começa por ser, na realidade, dois filmes, cada um deles acompanhando a experiência de um dos elementos do casal: Ele e Ela. Depois de estrear estas versões no Festival de Cinema Internacional de Toronto Ned Benson, realizador e argumentista, editou uma terceira versão, Eles, onde junta as duas visões num filme convencional, à falta de melhor designação.

Começarei por falar das versões Ele e Ela e posteriormente da versão editada dos dois. Partilharei também a minha experiência de visionamento, no que respeita à ordem pelos quais os vi, debatendo qual a ordem ideal para experimentar estes filmes. Tentarei ao máximo evitar spoilers pois acredito que este(s) filme(s) não são largamente conhecidos, sendo que pretendo dá-los a conhecer com esta minha análise sem estragar a experiência para quem fique interessado em vê-lo(s).

Em ELE seguimos Conor, interpretado por James McAvoy. A sua relação com Eleanor, interpretada por Jessica Chastain, passa por um período difícil e, após um incidente que a leva a uma cama de hospital esta decide afastar-se de Conor para recomeçar a sua vida do zero, para grande surpresa e consternação deste que se vê confrontado pelo desejo de a recuperar e tentar refazer a sua relação ao mesmo tempo que procura respeitar a sua decisão.

O estilo de Ned Benson é realista e verosímil sem ser um registo documental: é cinemático e tem por base um excelente argumento que proporciona diálogos que soam verdadeiros e consistentes com o desenho do carácter das personagens. Sendo esta apenas uma metade da experiência não é de estranhar o desequilíbrio narrativo pois acompanhamos em exclusivo o ponto de vista de Conor. Certas informações são fornecidas ao espectador sendo que outras terão de ser inferidas ou ficam mesmo por se saber. Não fosse haver uma versão Ela e ficaríamos com partes do puzzle incompletas resultado da vivência exclusiva ao lado de uma só personagem. E quando há momentos de aparente resolução esta revela-se elusiva, sendo apenas mais um momento numa narrativa de vida num constante estado de fluxo de fuga para a frente.

Em ELA, o primeiro ponto a assinalar, além do facto de que nesta versão acompanhamos a mesma história de Ele desta vez sobre o ponto de vista de Eleanor, é o facto de que o retrato de Conor nesta versão é substancialmente diferente daquele apresentado em Ele. A personalidade mais mercurial de Eleanor, e a forma como reage aos acontecimentos do casal, lançam um olhar sobre a personalidade de Conor sob uma diferente luz. Arrisco mesmo dizer que Eleanor vê-se a si própria de forma menos positiva que Conor a vê a ela e as cenas em que interagem os dois variam em tom e pormenores entre os dois filmes.

Além disso temos nesta versão alguns flashbacks onde Eleanor remanesce sobre momentos passados onde, apesar da felicidade patente, percebemos nos pequenos detalhes os diferentes e irreconciliáveis traços de personalidade que existirão sempre entre duas pessoas distintas, mesmo que apaixonadas.

Sendo fiel à sua personagem central Ela é um pouco mais melancólico reflectindo o estado de confusão de Eleanor e a tentativa de lidar com a família que, apesar das melhores intenções, não sabe como reagir perante a sua situação. “A tragédia é um país estrangeiro. Não sabemos como falar com os nativos.” diz-lhe o pai a certa altura.

ELES é o resultado da edição de ambas as versões anteriores numa versão única. Apesar disso não é apenas a consolidação convencional numa narrativa equilibrada entre os dois pontos de vista. É também uma nova perspectiva sobre os mesmos acontecimentos. As opções editoriais optam por revelar alguns factos em momentos diferentes das versões anteriores o que torna a experiência relativamente fresca mesmo para quem as tenha visto. Eles funciona mesmo sem o contexto que aqui dou. Quem o veja sem conhecer o projecto nem as outras versões encontrará um filme envolvente, inteligente, sensível e tocante, apesar de se perderem as nuances das perspectivas dos personagens principais.

Chegados a este ponto gostaria de divagar um pouco sobre a forma de abordar estes filmes para quem, como eu, se preocupa com este tipo de coisas. Vi em primeiro lugar, no cinema, a versão Eles, só mais tarde conseguindo ver em DVD as versões Ele e Ela. Pessoalmente acho que tive a experiência às avessas pois teria optado pelas versões isoladas em primeiro lugar se tivesse tido oportunidade de escolher. Gosto da sensação da incerteza ao ver um filme e da experiência da descoberta ao desfrutá-lo. 

Tal como concebido pelo autor O Desaparecimento de Eleanor Rigby é para ser visto como o díptico Ele/Ela. De certa forma Eles é uma revisão das versões anteriores e acredito que tanto pode ser visto como um desvirtuamento do formato original como pode ser apreciado como complemento das mesmas. Em qualquer ordem será muito fácil o envolvimento com a viagem emocional destas personagens que fervilham em lume brando uma mistura de mágoa, arrependimento, e confusão mas também optimismo pela possibilidade do reacender de uma paixão. 

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