Episódio #13 - Vai Seguir-te / Fantasma

O terror, tal como a comédia, é um género difícil. O que nos assusta, tal como o que nos faz rir, é muito subjectivo e pessoal. Cada pessoa tem a sua sensibilidade, os seus medos e as suas ansiedades. Há quem veja O Exorcista e tape os olhos nas cenas clínicas, ficando imperturbável com visíveis manifestações de posse demoníaca. É tão fácil encontrar quem ache Actividade Paranormal perturbador como uma valente chatice. Sobre este não posso falar porque me recusei a vê-lo. A verosimilhança do chamado found-footage prometia trazer perturbações para o sítio onde procuramos todas as noites a nossa paz e descanso e decidi que não precisava dessa ansiedade.

Esta relutância tem crescido com a idade. O fascínio que tinha por filmes de terror em tenra idade vinha acompanhado por iguais doses de impulsividade e coragem. A impulsividade ainda cá mora mas a coragem já não é minha amiga. Com a progressiva sofisticação dos efeitos especiais cortei relações com o terror gráfico e é no terror psicológico que continuo a aventurar-me. Vai Seguir-te insere-se neste género e é reminescente dos slashers dos anos 80. Não só pela banda-sonora, que nos remete para os filmes de John Carpenter, como também pelo grupo de protagonistas adolescentes, enquadramento geográfico de bairro de subúrbio e ambiente ligeiramente hipnótico e retro criado por David Robert Mitchell.

O seu maior trunfo é uma premissa original, numa altura em que a originalidade escasseia: há uma maldição que é passada de pessoa em pessoa através do acto sexual. O que parece ser um ponto de partida para uma metáfora sobre doenças sexualmente transmitidas ou para mais uma entrada no cânone moral dos adolescentes como carne para canhão, consequência da sua actividade sexual, revela-se afinal um filme mais inteligente do que a média, evitando clichés e apresentando personagens verosímeis com reações racionais e inteligentes.

O ritmo do filme é ponderado e, se não chega a ser terrivelmente assustador, é porque, na minha opinião, o género é acidental. David Robert Mitchell parece estar mais interessado na sua premissa enquanto metáfora da inevitabilidade da mortalidade bem como elemento catalisador da angústia e do desejo, também sexual mas não só, como expressões marcantes da adolescência. Ao ver Vai Seguir-te tenho a sensação que o escritor e realizador não era propriamente popular na escola e a atenção a alguns pormenores na interação entre Jay, a personagem principal, e Paul, o seu amigo de infância, fazem-me acreditar que ele próprio tem alguma experiência com a confusão e ansiedade dos seus adolescentes protagonistas.

Num universo de decadência urbana e alienação onde os pais não parecem estar presentes é na força das relações de amizade, e através de um acto de derradeiro sacrifício pessoal, que se encontra o caminho para combater o perigo. E, se não houver maneira de o eliminar, que melhor solução para o encarar senão de mão dada?


Don Coscarelli é um nome que conhecia de dois títulos conceptuais e ousados: Bubba Ho-Tep e John Dies at the End. O primeiro é uma comédia fantástica que encontra dois residentes de um lar que acreditam ser Elvis e John F. Kennedy e que têm de unir forças para combater uma múmia egípcia antiga. O segundo, que vi na edição de 2013 do MOTELx, é um cocktail alucinado de acção, humor, criaturas de outra dimensão, viagens no tempo, drogas em forma de molho de soja e um dos filmes mais corajosos e originais que vi nos últimos anos.

Mas o filme que deu a conhecer Coscarelli ao mundo é um filme de terror de 1979, Fantasma, no original Phantasm. Os mais atentos terão reparado que a stormtrooper cromada de Star Wars: O Despertar da Força, Phasm, foi uma homenagem a este filme de J.J. Abrams que, não só é fã do mesmo, como está a ajudar no seu restauro para uma nova edição digital.

Fantasma conta a história de um violador de sepulturas misterioso, conhecido como Homem Alto, que se vê confrontado por dois irmãos órfãos. Esta sinopse resume praticamente o filme todo em termos de trama sendo que o resto que haverá para contar acontece numa cena de exposição onde o personagem principal aparece inexplicavelmente com a resposta a todas as perguntas que possamos ter.

Os fãs deste filme, e basta espreitar o IMDB para perceber que não são poucos, elogiam o seu estilo surreal e onírico. Acontece que a minha experiência com o filme foi diferente: o onírico de um homem é o mal escrito de outro; o surreal de um, o inconsistente de outro. Nada nas acções destas personagens fez sentido para mim. A narrativa é circular, aleatória e aborrecida. As interpretações são sofríveis e, mesmo com o enquadramento de que esta é uma obra de baixo orçamento, o resultado parece amador. Com excepção da banda sonora, eficiente e apropriada para o ambiente pretendido.

Como teste derradeiro resta saber se é assustador. O problema é que não é. A famosa cena do globo cromado é eficiente, apesar dos efeitos datados e da inconsequência narrativa. As pequenas criaturas, misturas de Jawas do Star Wars (nem de propósito) e das crianças deformadas d’A Ninhada, filme do mesmo ano de David Cronenberg, não chegam a provocar o efeito aterrador desejado. Infelizmente, do mesmo mal sofre a figura do Homem Alto, cujas características assustadoras se parecem limitar a fazer caretas, a esperar atrás de portas e janelas e a gritar pelo rapaz de forma ameaçadora.

Mesmo vislumbrando-se alguma visão e talento é difícil compreender o estatuto de culto de Fantasma, primeiro filme de uma saga de quatro realizados integralmente por Don Coscarelli.

Por favor não se esqueçam de rebobinar...