Episódio #8 - Hannibal / Wet Hot American Summer

Hannibal, a série de TV, era um projecto que, em conceito, não me seduzia. Quando em 1991 vimos O Silêncio dos Inocentes tornar-se um fenómeno de popularidade também eu fui apanhado na corrente. Li o livro original de Thomas Harris e, quando a sequela realizada por Ridley Scott foi anunciada, Hannibal, comprei e li o livro assim que pude, desta vez antes de ver o próprio filme. Tanto em livro, como em filme, quem esperava uma repetição do Silêncio dos Inocentes ficou extremamente desiludido. Com um desfecho delirante e improvável, alterado na versão cinematográfica, ainda me encheu as medidas no que respeita ao ficcional doutor canibal, apesar da substituição da Jodie Foster pela Julianne Moore. Gostei do negrume da história e do exercício de adaptação que reconheci no ecrã.

Descobri então Caçada ao Amanhecer, Manhunter no original, a adaptação de 1986 de Michael Mann do livro de Harris onde Hannibal Lecter faz a sua primeira aparição: O Dragão Vermelho. Nunca cheguei a ler este livro mas a personagem de Lecter, que aqui era secundária, viria a tornar-se central na versão requentada de 2002 realizada por Brett Ratner. Este “Silêncio dos Inocentes light” aumenta o papel de Lecter capitalizando no sucesso da interpretação de Anthony Hopkins mas por esta altura já se nota o piloto automático nesta tentativa de Dino De Laurentiis corrigir o erro de ter cedido os direitos do que viria a ser o mega-sucesso de Jonathan Demme após o fiasco da produção de Mann.

O próprio Thomas Harris, encadeado pelo brilho da personagem que criou, e encurralado pelo final que cozinhou em Hannibal, escreve uma prequela, Hannibal, A Origem do Mal, que ele próprio adapta ao cinema em 2007 num filme de Peter Webber. Não li este livro nem vi este filme, desiludido nesta altura com a opção de Harris de tentar desmistificar o mistério da personagem com uma história da sua origem. O fracasso de público e de crítica deste filme parecia ter sido o ponto final nesta saga.

Assim, quando a série é anunciada, pareceu-me uma tentativa de requentar uma propriedade intelectual com valor pré-estabelecido no mercado. Só após algumas recomendações, e ainda com algumas reservas, abordei a série. No papel de Hannibal temos Mads Mikkelsen, o excelente actor dinamarquês que conhecemos como Le Chiffre em Casino Royale, numa abordagem muito própria ao papel sendo este o seu maior trunfo: não emular Anthony Hopkins. Não fossem as questões dos direitos que Martha de Laurentiis não detém sobre algumas personagens e provavelmente teríamos Clarice Starling como contraponto a Hannibal. Desta forma temos Will Graham, personagem de O Dragão Vermelho, história que serve de forma muito livre como base da série. Hugh Dancy demora a aquecer no papel de Graham mas lentamente vai-se habituando à sua pele.

Hannibal começa por ser um procedural que funciona como prequela às histórias que conhecemos, com a óbvia excepção de Hannibal, A Origem do Mal, que no entanto também contribuirá com a sua quota-parte para a série. Fosse apenas isto e já seria um triunfo visual, de mood - desculpem o inglês, mas não temos palavra em português equivalente - e de violência gráfica de uma originalidade e factor choque como nunca tinha assistido numa série televisiva.

Verosimilhança e subtileza não são palavras que se possam aplicar para descrever esta série, em nome do rigor. Logo pelo terceiro episódio da primeira temporada lembro-me de pensar que tenhamos deixado o Kansas há muito tempo e que tinha visto mais nestes primeiros episódios do que em muitas temporadas inteiras de outras séries. Além disso um dos pontos centrais da dinâmica entre as personagens são as variadas, requintadas, luxuriantes e duvidosas refeições que Hannibal prepara e partilha com as restantes personagens entre as suas sessões de terapia e o seu trabalho de campo num “suposto” auxílio de investigação do FBI. Tudo isto naquilo que parece ser um palacete misto de habitação e consultório psiquiátrico, ou seja, não faz sentido nenhum mas oferece-nos algumas das melhores cenas de diálogos das duas primeiras temporadas.

Mas a cereja em cima do bolo que me fez apreciar Hannibal muito mais do que esperava é a construção de universo que os argumentistas vão elaborando com os vários acontecimentos dos vários livros de Thomas Harris, exceptuando O Silêncio dos Inocentes. Várias linhas narrativas, personagens ou acontecimentos são usados como peças de  um puzzle que, não sendo a tradução literal do original, cria uma narrativa alternativa própria e separada do que já conhecíamos. 

Para quem gosta de ver uma série do princípio ao fim esta é uma boa altura para investir. Hannibal foi cancelada ao fim de três temporadas e forma uma narrativa fechada. Além de alguns nomes com experiência televisiva beneficia de nomes sonantes com experiência cinematográfica na realização de alguns episódios, desde David Slade, também produtor executivo, passando por Neil Marshall, até Vincenzo Natali que nos oferece algumas das entradas de maior requinte visual e estético.

Mas fica o aviso: Hannibal não é para estômagos fracos. algumas das imagens ficarão gravadas nas vossas cabeças por algum tempo. Se isto não for um problema aguarda-vos um apetitoso festim.


"O que é Wet Hot American Summer?" poderão estar a pensar neste momento. Julgando exclusivamente pelas críticas dos utilizadores do IMDB das duas uma: ou é a pior comédia alguma vez produzida ou é a melhor comédia de todos os tempos. A razão para este contraste é explicado pelo facto de que este é um filme de 2001 do realizador e escritor David Wain, em colaboração com o também actor Michael Showalter. Para quem não conhece David Wain recomendo vivamente a série criada por Rob Corddry, Childrens Hospital, onde Wain é uma das mais prevalentes forças criativas. Esta série foi decisiva para me sintonizar com o seu tipo de humor muito específico, para me familiarizar com a sua trupe de actores e colaboradores e, consequentemente, com a descoberta de Wet Hot American Summer.

O humor muito específico de que falo é um humor auto consciente, muito referencial, totalmente nonsense e sem medo de esticar por vezes a corda nos limites do negrume. As acções das personagens não têm consequências fora dos limites do próprio episódio e estas não estão preocupadas em serem agradáveis ou relacionáveis, antes pelo contrário. A maior parte das vezes são as suas motivações egoístas que guiam as narrativas.

A trupe é constituída por um conjunto de caras que vão recorrendo nos vários projectos e que dão uma sensação de conforto e reconhecimento que nos informa automaticamente que estamos em boas mãos. Além de encontrarmos o veterano Henry Winkler quem, depois de conhecer Childrens Hospital, não reconhece os nomes de Rob CorddryKen MarinoRob Huebel ou Lake Bell?

Tendo ouvido falar da série de TV Wet Hot American Summer: First Day of Camp, e sabendo ser este um projecto de David Wain, decidi descobrir o obscuro filme de 2001 Wet Hot American Summer do qual a série é uma prequela. Em primeiro lugar o elenco é de luxo. A par de alguns veteranos - Janeane GarofaloDavid Hyde Pierce ou Molly Shannon - junta uma quantidade de nomes que em 2001 seriam desconhecidos mas que hoje suscitarão uma reacção diferente: Paul Rudd, Bradley CooperAmy Poehler ou Elizabeth Banks, entre outros. Depois, o que aparenta ser uma típica comédia adolescente revela-se imediatamente como algo completamente diferente do habitual ao contar com actores descaradamente adultos no papel de adolescentes, não por um qualquer erro de casting forçado mas por ser esta uma opção tomada conscientemente e propositadamente. Este contraste informa imediatamente o tom do filme que é ajudado pelo comprometimento dos actores nos respectivos papéis.

A narrativa é relaxada e episódica, sem nunca parecer apenas um conjunto de sketches. A acção desenrola-se em 1981 e acompanha o último dia num campo de férias tipicamente americano, centrando-se nos encontros e desencontros amorosos e sexuais dos monitores. Muitos dos clichés deste tipo de filme são desconstruídos de forma hilariante. A montagem da ida à cidade ou a reacção da descoberta da homossexualidade de duas personagens são dois óptimos exemplos disto: a primeira, uma sequência elaborada da surreal descida vertiginosa aos infernos do grupo que visita a cidade, a segunda uma piada fugaz e non-sequitur que quase apenas funciona ao retardador. 

O leque de personagens também contempla todos os lugares-comuns do género, desde os populares, até aos românticos mas envergonhados, passando pelos bullies e pelos artistas complementado com o cozinheiro veterano do Vietname com traumas por resolver.

Seguindo a tendência actual de transformar propriedades intelectuais previamente existentes em séries de TV, como Hannibal ou Fargo, para não falar no dilúvio de séries de super-heróis, David Wain oferece-nos Wet Hot American Summer: First Day of Camp, a improvável prequela produzida pela Netflix onde conhecemos o primeiro dia do acampamento de verão do qual o filme era o último. Digo improvável pois, não só o filme é de culto junto de um número restrito de fãs como conseguiu, a par da totalidade do elenco do original, valiosas adições como Jason Schawrtzman, Lake Bell, Chris Pine, Kristen Wiig ou John Hamm.

First Day of Camp reforça o nonsense dos adultos a interpretar papéis de adolescentes e recompensa a espaços quem conheça o filme original mas não o torna essencial para apreciar o humor que oferece. Este vê o seu tom prolongado e, inclusivamente, levado para sítios ainda mais estranhos com as típicas preocupações amorosas adolescentes complementadas com chantagens, assassinos profissionais, preocupações ambientais e corporações suspeitas responsáveis por despejos tóxicos.

Se isto vos soa bem recomendo vivamente que procurem descobrir Wet Hot American Summer, David Wain e a sua trupe.

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