Episódio #5 - Steve Jobs / Pirates of Silicon Valley

Steve Jobs esteve quase a reunir o par d’A Rede Social: David Fincher e Aaron Sorkin. Além do sucesso crítico e de público A Rede Social deu a Sorkin, conhecido pelo seu estilo verborreico, e pelas suas cenas “andando e falando” celebrizadas na série Os Homens do Presidente, um Oscar de melhor argumento adaptado. Depois de outro filme de contornos biográficos, e outra nomeação aos Oscars, com Moneyball - Jogada de Risco, Sorkin volta ao universo informático desta vez adaptando a biografia oficial de Jobs por Walter Isaacson.

Apesar do afastamento de Fincher, o projecto ganhou um trunfo à partida muito interessante: o realizador Danny Boyle. Apesar do seu estilo frenético parecer incompatível com o material o seu apurado sentido estético e visual criou expectativas em relação às sinergias que poderiam trazer às palavras de Sorkin. E não vou estar com rodeios: penso que Steve Jobs é um triunfo a vários níveis. Começando pela estrutura narrativa. É para mim fascinante o processo de adaptação pois Sorkin teve como ponto de partida uma biografia que percorre os acontecimentos de uma vida e, retirando a essência, construíu um filme concentrado em meia dúzia de personagens e em três actos distintos limitados no espaço e no tempo. Tudo se passa, fora o ocasional flashback que, já agora, dialoga com a cena em que está integrada, nos bastidores dos momentos que precedem o lançamento de três produtos:

O Macintosh, em 1984

O NeXT, em 1988 e

O iMac, em 1998.

Danny Boyle filma cada um destes actos com diferentes suportes. 1984 foi filmado com película de 16 mm, enquanto que 1988 com película de 35mm e 1998 em suporte digital. Com isto, mesmo que de forma inconsciente, fazemos uma viagem temporal pelas inovações também ao nível do cinema ao ver este filme. Sorkin, por seu lado, não está preocupado com a reprodução factual dos acontecimentos, nem com nenhuma rigorosa reconstituição dos acontecimentos. Ainda assim, para qualquer espectador que em 2015 vê este filme, é compreensível, mesmo que não explicitamente mostrada, a importância das inovações tecnológicas que moldaram a nossa vivência actual, e que aqui servem apenas como pano de fundo e pontuais metáforas para o homem que esteve por trás delas.

As cenas de diálogo têm, por vezes, a intensidade de uma boa cena de acção num bom filme deste género. No centro está Steve Jobs, interpretado por um Michael Fassbender que nos seduz e rapidamente nos faz desaparecer qualquer questão relacionada com a semelhança física, ou falta dela. Para quê uma fotocópia se podemos ter uma interpretação tridimensional, verrugas e tudo? À sua volta gravitam personagens como Johanna Hoffman (Kate Winslet), Steve Wozniak (Seth Rogen), John Scully (Jeff Daniels) ou Andy Hertzfeld ( o excelente Michael Stuhlbarg).

Todas estas interacções tricotam uma narrativa envolvente com o seu núcleo emocional ancorado na relação com a filha, interpretada por várias jovens actrizes nas várias idades. O homem que queria estar sempre no controlo da situação e que, na angústia de se sentir rejeitado, rejeitou também quem mais deveria ter amado, revela-se tão fechado como os produtos que idealizava. A excelência que procurava nestes como uma forma de superar os seus próprios defeitos de “construção”. No final, apontado por muitos como um final redondo e sacarino, de certa forma um elogio à figura de Steve Jobs, apesar de si próprio, este confessa, quando lhe perguntam porque é que agiu erradamente em certos momentos: “Porque fui fabricado com defeito."


Pirates of Silicon Valley é um telefilme de 1999 que conta a história da rivalidade entre Steve Jobs e Bill Gates e o crescimento das suas respectivas empresas, Apple e Microsoft, no boom do desenvolvimento informático entre o final dos anos 70 e o virar do milénio. É a personagem de Steve Jobs, interpretado por Noah Wyle, que abre o filme, dirigindo-se directamente aos espectadores, definindo à partida o pendor do autor deste filme na visão dos acontecimentos: apesar de uma história a dois é a perspectiva de Jobs que mais acompanhamos, fazendo dele o protagonista principal em oposição ao retrato pouco lisonjeador de Bill Gates, tal como interpretado por Antony Michael Hall. Este é retratado como inseguro, irresponsável e oportunista e, apesar de se abordar o carácter questionável de Jobs os autores parecem tomar o seu partido. 

O mais interessante deste filme, e completamente alheio às suas qualidades e defeitos, é o facto de ter sido produzido em 1999. Quando a história deveria ganhar propulsão e entrar na fase mais interessante da mesma simplesmente acaba pois não havia nada mais para contar na altura. O que veio antes talvez fosse suficiente para um bom filme mas este nunca emerge à superfície. Não passa de uma curiosidade de valor documental. Caindo em todas as armadilhas do biopic revisita momentos chave dos acontecimentos, muitas vezes sem enquadramento para um leigo sem conhecimento prévio da história, e sem real entendimento dos personagens ou motivações.

Seria menos grave se tivéssemos uma narrativa interessante ou informativa sobre a importância da revolução a que estamos a assistir. Apesar de sermos cúmplices de algumas personagens, que nos endereçam directamente sublinhando a relevância do que estamos a assistir, nunca aprendemos exactamente os “comos” e os “porquês”. Mesmo a grande reviravolta que nos é apresentado no início, de onde parte o flashback que arranca a narrativa e que deveria culminar na mesma, é apenas mencionada de passagem nos habituais textos que fecham grande parte dos filmes biográficos que nos tentam pôr a par do que entretanto aconteceu.

Talvez esta não seja uma história cinematográfica. Provavelmente existem muitos e bons livros que contam melhor esta história. Se nos quisermos focar nas personagens, temos de esperar por um filme sobre Bill Gates. Em relação a Steve Jobs, Danny Boyle já se encarregou disso.

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