A animação de Tim Burton

A animação de Tim Burton

No dia 22 de Janeiro de 2018, foi inaugurado no podcast Segundo Take o programa Universos Paralelos da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta). Neste primeiro episódio, que poderão encontrar em www.segundotake.com/podcast/2018/1/21/episodio117, viajamos pela filmografia de animação de Tim Burton.

Tim Burton tem uma carreira invejável. Se é verdade que recentemente não tem encontrado o reconhecimento da crítica e do público que conseguiu com as suas primeiras longas-metragens no último par de décadas do século XX, não é menos verdade que conseguiu com esses títulos estabelecer um estilo tão peculiar e pessoal que é imediatamente reconhecível como seu. Com uma sensibilidade obscura e reservada — facilmente identificada por quem sempre se sentiu à margem —, criou excêntricas fantasias góticas recheadas de referências e piscadelas de olho aos clássicos de terror e ficção-científica com que cresceu: em Eduardo Mãos de Tesoura (1990), colocou o ídolo Vincent Price num pequeno papel; em Ed Wood (1994), prestou homenagem ao entusiasmo cinéfilo de Edward D. Wood, Jr., um cineasta amaldiçoado pelas brumas da memória; em Marte Ataca! (1996) satirizou com afecto os paranóicos filmes dos anos cinquenta sobre invasões extraterrestres; em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999) adaptou superiormente o clássico da literatura gótica de terror sobrenatural de Washington Irving. E não é coincidência estes títulos revelarem uma mistura de inventividade e criatividade própria de uma animação. Esta foi a primeira paixão do seu autor, a que tem regressado amiúde ao longo da sua carreira.

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Nascido em 1958 no estado norte-americano da Califórnia, desde muito cedo revelou interesse pela linguagem cinematográfica produzindo em criança curtas-metragens de animação stop motion com uma câmara de 8mm no jardim da sua casa. O seu primeiro filme conhecido, filmado quando contava com apenas treze anos, é The Island of Doctor Agor (1971). Introvertido e tímido, Burton sentia-se realmente feliz a pintar, desenhar e ver filmes. Entre 1971 e 1979, realizou mais sete curtas-metragens, a sua maioria utilizando a técnica de animação do seu primeiro filme juvenil. Nesta fase embrionária da carreia, mesmo os títulos de acção «real» que realizou incorporavam elementos de animação ou reproduziam a sua estética. Com o seu trabalho no California Institute of the Arts in Valencia, a universidade do estado onde nasceu conhecida por CalArts onde estudou animação de personagens, chamou a atenção da divisão de animação da Walt Disney Productions, que o viria a contratar.

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Na Disney trabalhou como animador, artista de storyboard e artista conceptual — apesar dos seus conceitos nunca terem chegado ao produto final, trabalhou em títulos como Papuça e Dentuça (The Fox and the Hound, Ted Berman, Richard Rich e Art Stevens, 1981), Taran e o Caldeirão Mágico (The Black Cauldron, Ted Berman e Richard Rich, 1985) ou Tron (Steven Lisberger, 1982). Durante a sua estadia no gigante da animação, além de realizar um especial do Dia das Bruxas para a televisão onde adaptou o conto clássico dos irmãos Grimm Hansel and Gretel (1983), realizou duas curtas-metragens importantes para a sua carreira. Vincent (1982), uma carta de amor ao ídolo Vincent Price, é uma animação baseada num poema escrito pelo autor narrada pelo próprio actor. Inspirado nas adaptações de Edgar Allan Poe que este interpretou para Roger Corman, Vincent — utilizando novamente a técnica stop motion — define uma estética inconfundível que Burton apuraria nas restantes animações ao longo da sua carreira. O outro título foi Frankenweenie (1984), uma fantasia altamente estilizada inspirada no conceito do Frankenstein que, apesar de ser um filme de «carne e osso», quando foi revisitada por Burton anos mais tarde, deu origem a mais uma longa-metragem de animação no currículo do realizador.

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Ainda no período em que trabalhou para a Disney, algures entre 1981 e 1984, Burton escreveu um poema sobre Jack Skellington, o mestre de cerimónias do Dia das Bruxas que, ao descobrir o Natal, se deixa enlevar pelos seus encantos e decide substituir o Pai Natal na sua celebração. Esta história, mais tarde editada em livro com ilustrações do autor, deu origem a O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, 1993), um dos filmes mais memoráveis de Tim Burton. Apesar de não o ter realizado, Burton parece condensar de forma perfeita o seu universo nesta animação (stop motion, que mais?) musical de tal forma que o título original é muitas vezes prefixado do nome do autor. Ao rodear-se de colaboradores de confiança — Caroline Thompson escreveu o argumento, Danny Elfman compôs a banda sonora original e as canções e Henry Selick realizou — criou um clássico instantâneo com a vantagem de ser uma obra sazonal em duas épocas festivas distintas. Burton, com um menor nível de envolvimento, viria a produzir novamente um filme realizado por Selick — James e o Pêssego Gigante (James and the Giant Peach, 1996), uma adaptação do celebrado autor de livros infantis Roald Dahl que mistura animação com cenas de acção real — bem como o discreto 9 (2009), realizado por Shane Acker.

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Finalmente, em 2005, Tim Burton assina a realização (a meias com Mike Johnson) de uma longa-metragem de animação. A Noiva Cadáver (The Corpse Bride) é uma fantasia vitoriana telúrica e feérica inspirada num conto tradicional russo do século dezanove que utiliza novamente o stop motion para subverter um conceito macabro numa emocionante e emocional história de amor não correspondido entre duas personagens separadas pela derradeira linha que separa a vida da morte. Apesar de também ser um musical visualmente deslumbrante, é menos exuberante que O Estranho Mundo de Jack, não partilhando do seu enorme e perene sucesso. Em 2012, já numa fase em que crítica e público parecem ter virado as costas ao autor, Burton decide revisitar a sua curta-metragem Frankenweenie, refazendo-a numa animação no seu estilo tradicional, tanto no que se refere à técnica de animação como à estética das suas personagens. Com uma fotografia nostálgica a preto-e-branco, à imagem do filme que o inspirou, dispensa desta vez a componente musical, tendo sido o primeiro filme de animação stop motion a estrear em IMAX 3D.

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Mas nem só de cinema se fazem as animações de Tim Burton. Em 1987, em conjunto com Brad Bird, escreveu um episódio animado realizado por aquele de Contos Assombrosos (Amazing Stories, 1985-1987), a série antológica criada por Steven Spielberg. Este curto episódio viria a dar origem em 1993 a uma série de dez episódios com o mesmo nome, com Burton a assegurar a produção executiva. Este foi também o papel que assumiu em Beetlejuice (1989-1991), a série animada que durante noventa e quatro episódios recuperou a figura central do seu sucesso de 1988. No virar do milénio, inspirado pelo seu poema A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias — livro original de 1997 com o título The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories, editado em Portugal pela Antígona em 2007 —, Burton produz em 2000 uma série de curtas animadas através de flash (uma novidade na altura, mas uma tecnologia em declínio dezassete anos depois). The World of Stainboy, constituída por seis episódios com menos de cinco minutos de duração cada um, recuperava personagens do livro para contar histórias sobre Stainboy, um super-herói muito diferente daquele que, no ocaso da década de oitenta, fez de Tim Burton um nome mundialmente conhecido.

Falar de animações de Tim Burton é, na realidade, uma questão técnica. Este é um autor com uma visão única e tão pessoal que o seu nome se tornou uma imagem de marca. O seu universo é coerente e consistente através das várias obras que produziu e realizou, sejam elas curtas ou longas-metragens, com actores de «carne e osso» ou marionetas à disposição dos animadores. Entrar no universo de Burton é viajar até mundos de sonhos e pesadelos e viver fantasias de terror, aventuras de super-heróis, ataques de extraterrestres e musicais macabros onde a realidade se confunde com a imaginação e se transforma numa animação resultante de um sonho febril do seu criador.

António Araújo, Setembro 2017

 

Fontes primárias

Curtas-metragens de animação

  • The Island of Doctor Agor (1971)
  • Prehistoric Caveman (1971)
  • Tim's Dreams (1972)
  • 1997 (1974)
  • Stalk of the Celery Monster (1979)
  • King and Octopus (1979)
  • Vincent (1982)

Longas-metragens de animação

  • O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, Henry Selick, 1993)
  • James e o Pêssego Gigante (James and the Giant Peach, Henry Selick, 1996)
  • A Noiva Cadáver (The Corpse Bride, Tim Burton, 2005)
  • 9 (Shane Acker, 2009)
  • Frankenweenie (Tim Burton, 2012)

Televisão

  • Hansel and Gretel (Tim Burton, 1983, telefilme)
  • Beetlejuice (vários realizadores, 1989-1991, série de 94 episódios)
  • Family Dog (Brad Bird, 1987, episódio da série Contos Assombrosos)
  • Family Dog (vários realizadores, 1993, série de 10 episódios)
  • The World of Stainboy (Tony Grillo, 2000, série de 6 episódios)

Bibliografia

  • Burton, T. (1993) Tim Burton's The Nightmare Before Christmas. New York, NY: Hyperion Book CH. (Edição portuguesa pela Orfeu Negro)
  • Burton, T. (1997) The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories. New York, NY: Rob Weibach Books. (Edição portuguesa pela Antígona)
  • Burton, T. (2012) Tim Burton's Vincent. New York, NY: Disney Press.
  • Burton, T., Chen, H. (2014) Frankenweenie: A Graphic Novel. New York, NY: Disney Press.

 

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Burton, T., Salisbury, M. (ed.) (1995) Burton on Burton. London: Faber & Faber.
  • McMahan, A. (2005) The Films of Tim Burton: Animating Live Action in Contemporary Hollywood. London: Bloomsbury Academic.
  • Page, E. (2007) Gothic Fantasy: The Films of Tim Burton. London: Marion Boyars Publishers Ltd.
  • Gallo, L., Burton, T. (ilustrações) (2009) The Art of Tim Burton. Los Angeles, CA: Steeles Publishing.
  • Magliozzi, R., He, J. (2009) Tim Burton. New York, NY: MOMA.

Documentários

Websites

 

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