MOTEL/X 2017: o terror andou à solta em Lisboa

MOTEL/X 2017: o terror andou à solta em Lisboa

Este texto é uma compilação de textos publicados originalmente na Take Cinema Magazine e do texto elaborado para o episódio #99 do podcast.

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A edição de 2017 do MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa trouxe-nos seis dias — entre os dias 5 e 10 de Setembro — recheados de cinema (de terror e não só) que encheram os dois lados da Avenida da Liberdade em Lisboa, com exibições de filmes, eventos, masterclasses e homenagens no Cinema São Jorge e no Teatro Tivoli BBVA, bem como no Museu Coleção Berardo e na Cinemateca Júnior. Foi uma oportunidade para encontrar algum do novo cinema de género europeu e com origem noutras paragens. E foi também a ocasião para ouvir e homenagear dois gigantes do cinema, Roger Corman e Alejandro Jodorowsky. Se a conversa com o primeiro — que decorreu durante a semana — foi pacífica, o evento de sábado que trouxe o segundo viu uma enchente de tal forma que mais de metade das pessoas na expectativa de "privar" com o realizador tiveram de ficar de fora — tendo sido compensadas com bilhetes gratuitos para Santa Sangre, exibido nesse mesmo dia, e uma sessão adicional de autógrafos no dia seguinte.

A experiência de participar numa festa do cinema como o MOTELX é única. Em vários sentidos. Em primeiro lugar, porque nenhum dia é igual a outro. Todos os dias há algo novo a acontecer e, com o aproximar do fim-de-semana, aumenta também a quantidade e variedade de público que se desloca religiosamente até ao São Jorge para contrair o acto de fé cinéfilo. Depois, porque com a oferta de filmes e horários cada participante tem de fazer opções em relação às sessões que decide ver ou aos eventos em que decide participar. Desta forma, não há um MOTELX, mas sim tantos MOTELX quanto participantes, cada um com um programa curado pelo próprio e com os seus favoritos — bem como desilusões — muito pessoais. Por fim, e mais importante, podemos conhecer os rostos por trás dos filmes e relembrar que, independentemente da qualidade dos filmes, há pessoas, sonhos e trabalho responsáveis pelas obras a que assistimos.

Nestes seis dias, visionei 17 longas-metragens e 8 curtas-metragens, produções oriundas, no total, dos EUA, Canadá, México, Coreia do Sul, Austrália, Turquia, Polónia, Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suíça, Itália, França, Reino Unido e Portugal.

No departamento das curtas-metragens, a impressão que fica é que o formato deste tipo de narrativa é muito mais desafiante que o da longa-metragem. Os filmes fazem-se de ideias e conceitos, sem espaço para deixar uma narrativa convencional respirar, e os resultados nem sempre são satisfatórios. Ainda assim, deixo uma palavra de apreço para o excelente filme Thursday Night de Gonçalo Almeida, o grande vencedor do Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d’Argent 2017. Excelentes valores de produção e interpretações caninas numa peça ambiental com uma narrativa sólida e satisfatória. Parabéns!

No que respeita a longas-metragens, tive o prazer de ver no grande ecrã um filme de cada um dos mestres vivos convidados. De Roger Corman, vi A máscara da morte vermelha, uma adaptação de 1964 de mais um conto de Edgar Allan Poe. De Alejandro Jodorowsky, tive o primeiro contacto com o seu cinema com um filme menos referenciado da sua filmografia: Santa Sangre, de 1989, uma encomenda de filme de terror produzida por Claudio Argento.

Vi também os dois documentários deste ano que passaram na seção Doc Terror. King Cohen, realizado por Steve Mitchell, é uma biografia algo convencional sobre um homem muito pouco convencional: o argumentista, produtor, realizador e rebelde Larry Cohen que tinha uma capacidade extraordinária para produzir guiões e tácticas muito pouco ortodoxas de rodagem: vi também 78/52, um excelente filme de Alexandre O. Philippe que se propõe a dissecar a famosa cena do chuveiro de Psico e que, pelo caminho, lança novas luzes sobre a importância e genialidade do trabalho de Alfred Hithcock.

Dos todos os filmes que vi, destaco meia dúzia.

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Quando se fala em The Void, filme de 2016 da dupla de realizadores canadianos Steven Kostanski e Jeremy Gillespie, tem de se falar obrigatoriamente da influência de John Carpenter. Não só a estética e os efeitos especiais nos remetem para produções das décadas de setenta e oitenta, como a premissa do filme encerra um grupo de personagens num espaço confinado na tentativa de repelir uma ameaça externa. A mais valia de The Void é mesmo a violência gráfica que dispensa em doses generosas na sequência de eficazes cenas de crescente tensão. É refrescante ver um filme moderno de assumido terror gráfico que dispensa o recurso aos malfadados jump scares da praxe, depositando plena confiança na encenação de momentos horripilantes e viscerais para chocar o espectador pela força das suas imagens. Mas, narrativamente, fica a sensação que o excesso de ideias prejudica a história tornando-a confusa e inconsistente e retirando alguma da ameaça que poderia ter sido sublimada por uma definição mais clara e coerente do seu universo. Ainda assim, é de louvar a ambição de um filme desavergonhadamente gore que começa no universo dos perigosos cultos praticados em seitas obscuras e que acaba no domínio da mais pura ficção-científica.

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Depois de O Som do Medo, Toby Jones volta a brilhar num quebra-cabeças de construção meticulosa e cuidada, desta vez pela mão do irmão Rupert Jones, responsável pelo argumento e pela realização. Nesta estreia nas longas-metragens para cinema inspira-se em Alfred Hitchcock e Roman Polanski — este último, mais particularmente da safra de Repulsa (1965) e o Inquilino (1976); do mestre do suspense, as referências óbvias são mais de ordem estética do que temática com imagens e sequências a fazer lembrar A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958). Kaleidoscope é um thriller com um ritmo pausado e um particular cuidado com os pormenores que pode testar a paciência do público. Requer a sua devida atenção ao desafiar a lógica de uma narrativa convencional sem oferecer muitas explicações, deixando pistas para o seu entendimento de forma bastante subtil. Mas, com um actor do calibre de Toby Jones no centro de todas as cenas do filme, o investimento na narrativa é recompensado nesta primeira obra que não precisa de se envergonhar perante o pesado e importante legado que invoca.

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Sobre The Endless, cito aqui excertos da análise que José Carlos Maltez escreveu para a Take Cinema Magazine e que subscrevo em absoluto: "Quando se pensa que os mistérios de terror já não podem ser originais, a dupla independente Justin Benson e Aaron Moorhead abre-nos, em The Endless, mais uma porta para o seu universo bizarro e surreal. (...)  Feito com poucos meios, numa montagem fresca (onde acção e diálogos podem surgir em simultâneo ainda que sem ligação entre si), The Endless chega a parecer uma enorme produção, com efeitos especiais eficazes, um cenário perfeito e transições de sets e de tom (entre o ameaçadoramente lento ao desequilibradamente louco) em doses certas, que servem na perfeição os motivos da história. Fica uma atmosfera tipicamente lovecraftiana e um final mais ou menos em aberto, numa história bastante original e imaginativa, que certamente fará as delícias de quem aprecia um registo alternativo para filmes de mistério e terror, e que, ao mesmo tempo, lança um piscar de olhos ao anterior Resolução Macabra (Resolution, 2012), da mesma dupla."

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A edição deste ano do festival arrancou com Super Dark Times, a obra de estreia de Kevin Phillips. Neste drama cozinhado a lume brando, os adolescentes Zach e Josh, melhores amigos deste a infância, vão ver a sua amizade colocada à prova por um acidente trágico que os vai obrigar a carregar um segredo. Estamos na época natalícia de um qualquer ano da década de noventa, onde o discman coabita com o walkman e os telemóveis ainda não são ubíquos, nem tão pouco a internet. No entanto, as referências são tratadas com contenção. O foco aqui é o microcosmos das relações interpessoais de adolescentes normais com tempo para matar nas mãos — a palavra chave é mesmo "normalidade". A especificidade de caracterização das personagens, aliada a uma linguagem narrativa ponderada e verosímil no que respeita ao retrato das suas interações, eleva um argumento de Ben Collins e Luke Piotrowski algo indeciso no que respeita ao rumo e conclusão a dar à história. Com um prólogo misterioso, nota-se o esforço de tentativa de enriquecimento temático, mas Super Dark Times acaba por ser um sucesso pelo seu tom assombrado, ritmo confiante e interpretações recheadas de subtileza.

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Train to Busan é o título internacional de Busanhaeng, um filme sul-coreano de 2016 realizado por Sang-ho Yeon — a sua estreia em longas-metragens com personagens em carne e osso, depois de alguns títulos de animação — que chegou ao MOTELX envolto em alguma expectativa — foi o vencedor de inúmeros prémios em festivais do género —, apesar da sua chegada tardia e de já ter tido por cá muitos espectadores, nem sempre de formas legais. Train to Busan é um filme empolgante e emocionante, funcionando mais como um filme de acção recheado de adrenalina do que como um filme de terror. O argumento é conciso e directo, atirando-nos sem grandes explicações da origem do surto — também não eram precisas —para um frenesim de sobrevivência perante os ataques das pessoas enlouquecidas logo após serem mordidas. A mais pura vibração do filme compensa o esquematismo da sua narrativa que, apesar dos clichés, transmite uma honestidade de louvar — talvez por o povo coreano ainda estar imune a algum do cinismo de que sofremos no ocidente, quem sabe. Nas suas quase duas horas de duração leva-nos numa viagem — graçola completamente intencional — emocional e desgastante com inúmeras sequências construídas com mestria por Sang-ho Yeon que envergonhariam muitos blockbusters de verão, independentemente do seu país de origem.

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The Untamed é o título internacional da produção mexicana de 2016 La región salvaje, realizada pelo mexicano nascido na Catalunha Amat Escalante que chegou ao MOTELX apontado como uma obra difícil e experimental. Na verdade, é um título original que desafia qualquer tentativa de sinopse pois tem uma narrativa minimalista que se vai revelando e desvendando aos poucos, assentando numa estética de realismo social para introduzir um elemento alegórico de ficção-científica que tanto pode elevar a experiência para alguns espectadores, como miná-la. E que refrescante é falar de um filme no contexto do MOTELX sem referenciar mil e uma influências e inspirações! The Untamed é um filme sobre a prisão socioeconómica de uma cultura chauvinista e homofóbica. O terror não provém da criatura fantástica que apresenta, mas da ambiguidade da atracção e repulsa das personagens perante relações interpessoais tóxicas e viciadas, colocadas no seu lugar pelas regras instituídas e pelos status quo instalado, incapazes de procurarem alternativas e constantemente traídas pelo desejo mais básico humano: o prazer sexual. É claro que este é um filme longe de ser consensual. A sua abertura e frontalidade no tratamento dos elementos sexuais — relações interespécies incluídas — irão por certo fazer levantar sobrancelhas e, dado o contexto realista de preocupação social, o elemento fantástico poderá colocar muita gente à defensiva. Escalante não está preocupado com explicações científicas nem com qualquer forma de narrativa convencional. Este é cinema de personagens e do seu interior mais profundo: dos seus desejos, segredos e, mais importante ainda, lutas, desafios e fraquezas. É um cinema cerebral e desafiante, mas da melhor forma possível. Quantos filmes vemos actualmente em que, a cada momento, não sabemos de todo o que vem a seguir? Uma coisa é certa: The Untamed teve uma presença discreta no festival, mas quer se adore ou se odeie, esteve aqui um dos acontecimentos da edição de 2017 do MOTELX.

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Recordo que Thursday Night, de Gonçalo Almeida, foi o grande vencedor do Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d’Argent 2017. O júri composto pela actriz Maria João Bastos, o músico Carlão e o realizador Can Evrenol decidiu atribuir o prémio a esta curta-metragem “pela história, pela direcção, pela fotografia e pelos actores”, acrescentando que se trata de “um filme que nos marcou muito, que consideramos único e que certamente ficará na nossa memória”. Uma história de fantasmas só com animais, Thursday Night foi inspirado pelo álbum Thursday Afternoon de Brian Eno. O júri decidiu ainda atribuir uma Menção Especial a Depois do Silêncio de Guilherme Daniel, cujo trabalho de “argumento e fotografia” considerou “muito promissor”.

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Na competição internacional, Cold Hell de Stefan Ruzowitzky venceu o Prémio MOTELX – Melhor Longa de Terror Europeia /Méliès d’Argent 2017. Uma decisão que o júri composto pelo crítico Kim Newman e os actores Rogério Samora e Iris Cayatte considerou “clara” devido à sua “relevância contemporânea, acção emocionante e imaginativa e excelentes performances de todo o elenco”. Cold Hell é um thriller político passado numa Alemanha multicultural que conta a história de uma jovem taxista de origem turca perseguida por um assassino em série. “Filme excepcional que combina elementos do serial killer thriller com o terror”, esta é a mais recente longa-metragem de Ruzowitzky, que em 2008 venceu o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro com The Counterfeiters. O realizador e a actriz Violetta Schurawlow estiveram presentes na Sessão de Encerramento do MOTELX para receber o Prémio.

Podem ler os textos originalmente publicados na Take Cinema Magazine nos seguintes links

MOTEL/X – O rescaldo e os premiados

[MOTEL/X 2017] 78/52

[MOTEL/X 2017] A Máscara da Morte Vermelha

[MOTEL/X 2017] Cult of Chucky

[MOTEL/X 2017] It

[MOTEL/X 2017] Mayhem

[MOTEL/X 2017] Train to Busan

[MOTEL/X 2017] Lowlife

[MOTEL/X 2017] Better Watch Out

[MOTEL/X 2017] The Untamed

[MOTEL/X 2017] Dave Made a Maze

[MOTEL/X 2017] Kaleidoscope

[MOTEL/X 2017] The Void

[MOTEL/X 2017] Super Dark Times

O MOTEL/X está de volta

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