Um Cavaleiro das Trevas animado

Um Cavaleiro das Trevas animado

Este texto foi publicado originalmente na Take Cinema Magazine dia 19 de Fevereiro de 2017 com o título Lego Batman: O Filme e pode ser lido na íntegra aqui.

 

Em que pensam quando se ouve falar num potencial filme baseado no Monopólio? Ou no Tetris? Será que pensam que é o ribombar da anunciada morte da arte narrativa? Na falta de criatividade crónica de Hollywood? Na realização de que somos peões de uma cultura corporativa e capitalista onde nos vamos apercebendo que, mais ou menos discretamente, e mais ou menos coniventemente, os 1% mais ricos do mundo vivem com as mãos nos bolsos dos restantes 99%? Ou será que pensam apenas nos exemplos passados deste tipo de filmes? Ao fim e ao cabo não é preciso pensar muito para percebermos que, pelo menos desde a década de oitenta, o cinema se alia a marcas de jogos e brinquedos, numa tentativa de sinergia de mercados e público. Filmes como Battleship: Batalha NavalTransformers e as suas infindáveis sequelas, Angry BirdsG.I. Joe – O Ataque dos Cobra, e a sequela Retaliação, ou Masters do Universo são exemplos de como o cinema frequentemente se inspira em material sem valor narrativo, num aproveitamento do reconhecimento da marca para vender mais jogos e brinquedos. Assim não era estranho colocar O Filme Lego no mesmo saco quando foi anunciado. O que poderia ser o resultado final senão um estendido anúncio publicitário de hora e meia cinicamente construído para aumentar nos incautos miúdos, e em muitos graúdos, a vontade de comprar mais coloridos blocos de construção dinamarqueses? Acontece que Phil Lord e Christopher Miller, os responsáveis pela surpreendente animação Chovem Almôndegas e pela comédia Agentes Secundários, pegaram no conceito do Lego, e das várias personagens licenciadas à marca, e aproveitaram a oportunidade para construir com O Filme Lego em 2014 uma narrativa pós-moderna consistentemente divertida e com a vantagem de terem colocado no centro da história personagens originais, oferecendo às figuras conhecidas do público papéis secundários.

A única exceção foi o Batman, no aproveitamento do popular super-herói sério e solitário, numa interpretação vocal do comediante Will Arnett que já se tornou uma referência indissociável da personagem. Alinhado com o tom do filme esta visão do Cavaleiro das Trevas era delineada por grandes doses de ironia e um ego consciente do seu estatuto icónico, mas alheado dos seus defeitos e, consequentemente, da real imagem de si próprio aos olhos de terceiros. O sucesso da personagem foi de tal forma que no lançamento do novo videojogo Lego Dimensions, que integra inúmeras figuras reais de Lego das várias marcas licenciadas num jogo de ação para as várias plataformas do mercado, as três personagens disponíveis com o starter kit, ou seja, aquelas que vêm com o jogo e que não é preciso comprar à parte, são o Batman, a SuperCool d’O Filme Lego, e o Gandalf d’O Senhor dos Anéis. Além destes podem-se adquirir uma variedade de personagens d’Os Caça-Fantasmas, do Regresso ao Futuro, da Ninjago ou d’Os Simpsons, só para dar alguns exemplos. Não foi com nenhum grau de surpresa que, chegada a hora de anunciar um novo filme Lego, este se tenha revelado como sendo sobre o Batman. E acreditem que estamos no início da exploração de um filão potencialmente interminável, pois já circulam trailers para O Lego Ninjago a estrear em setembro, e já se aponta para 2019 a sequela direta de O Filme Lego original.

Com um argumento a 10 mãos baseado numa história original de Seth Grahame-Smith, e com realização de Chris McKay, realizador com trabalho maioritariamente em animação televisiva em séries como Robot Chicken, por exemplo, Lego Batman: O Filme centra-se no universo das bandas desenhadas da DC Comics e está recheada com uma panóplia impressionante de personagens habituais nas narrativas situadas em Gotham City, a cidade do Homem Morcego eternamente infestada de vilões prontos para estragar o dia, e conta novamente com Will Arnett no papel duplo do milionário Bruce Wayne e do seu alter-ego super-herói Batman. Michael Cera encarna o sidekick orfão e ingénuo Robin que é adotado acidentalmente pelo herói solitário. A completar o grupo de ajudantes de Batman temos Rosario Dawson como Batgirl e Ralph Fiennes como o mordomo Alfred. Do lado dos vilões Zach Galifianakis parece uma escolha lógica para o maníaco arqui-inimigo Joker. Jenny Slate encarna Arlequina, a popular companheira de Joker.

E o filme revela-se imediatamente como um exercício metafísico que questiona as regras, não só dos filmes de animação, como dos filmes de ação e super-heróis. O seu engraçado comentário aos logos e à música de abertura, próprios de um filme supostamente importante, não só está de acordo com o carácter previamente estabelecido desta versão do Batman, como revela fairplay e sentido de humor da Warner Bros. ao permitir que a irreverência prossiga filme adentro apontando indiscriminadamente farpas humorísticas, tanto através de piscadelas de olho subtis, como com referências óbvias e diretas. Um exemplo disto é o hilariante diálogo em que o Alfred aponta todas as ocasiões em que o seu amo teve momentos de reflexão e crises de identidade, ilustrado por uma representação de todos os filmes anteriores do herói. Outro exemplo é a música de Lorne Balfe, colaborador habitual de Hans Zimmer, que numa mesma faixa recria os momentos mais intensos daquele compositor para os filmes de Chistopher Nolan, ao mesmo tempo que pisca o olho ao famoso tema da série televisiva dos anos sessenta.  Se n’O Filme Lego o caracter do Batman era por si só a piada que sustentava a sua participação nesse filme, aqui constrói-se uma narrativa alternativa de um Cavaleiro das Trevas alternativo, mas assente no seu universo próprio e na sua mitologia previamente estabelecida.

É obra, portanto, que apesar do delírio visual na construção das alucinantes cenas de ação, e do ritmo imparável das piadas, se construa uma narrativa sólida e tocante assente na solidão do seu herói e na sua relutância em assumir relações, sejam elas de inimizade, negando ao Joker o estatuto de arqui-inimigo e, por conseguinte, uma ligação especial entre os dois por que este tanto anseia, ou sejam elas relações familiares, resistindo aos laços que se vão fortalecendo na sua relação com Alfred, Barbara Gordon e especialmente Robin com quem estabelece involuntariamente e acidentalmente uma ligação paternal. Além disso, revelando um bom sentido de equilíbrio e justeza no tratamento das suas personagens, oferece uma imagem da Barbara, também conhecida por Batgirl, como uma mulher independente, competente e determinada, decisiva no desfecho da narrativa e na viagem emocional da personagem central.

Pelo caminho encontramos piadas à conta de filmes românticos, com Jerry Maguire a ser o alvo favorito, e momentos musicais que ilustram de forma hilariante, tanto a atracão de Batman por Barbara, como a realização da sua solidão, neste caso através da inesperada utilização da música One, de Harry Nilsson, celebrizada pela versão de Aimee Mann na cena de abertura de Magnólia. Obviamente também se encontram inúmeras referências ao universo DC Comics, incluindo o Super-Homem, a Liga da Justiça, praticamente todos os vilões do Batman – incluindo alguns inventados para efeitos cómicos – e uma boca à recente adaptação do Esquadrão Suicida, entre muitas outras que serão mais óbvias para os fãs da banda desenhada, e outras tantas que se irão revelar em repetidas visualizações. E, sendo este um filme da Lego, oferece também uma série de personagens que noutras circunstâncias não se cruzariam com o Homem Morcego. Nomeadamente vilões como o Voldemort, da saga Harry Potter, Sauron, d’O Senhor dos Anéis, o King-Kong, o Homem da Lagoa Negra e até os pequenos monstros do Gremlins.

E é esta fórmula do Lego Batman: O Filme que faz deste um melhor filme que Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça e O Esquadrão Suicida. É curioso que as duas melhores representações d’O Cavaleiro das Trevas, das quatro que estrearam em cinema nos últimos 12 meses, sejam de animação. A par de Batman: The Killing Joke, uma visão muito mais adulta e séria, Lego Batman: O Filme é um caldeirão de referencias em velocidade vertiginosa que acaba por ser um entretenimento para os mais miúdos, sendo ao mesmo tempo uma genuína experiência para os fãs mais graúdos do Batman e do seu universo.

 

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