A banalidade do mal

A banalidade do mal

Este texto foi publicado originalmente na Take Cinema Magazine dia 7 de janeiro de 2017 com o título Vida Activa: O Espírito De Hanna Arendt e pode ser lido na íntegra aqui.

Hanna Arendt foi uma pensadora e filósofa alemã de origem judaica que, ao reportar em 1963 para a revista New Yorker o julgamento em Jerusalém de Adolf Eichmann, um administrador de campos de concentração nazis durante a Segunda Guerra Mundial, cunhou o conceito polémico de “banalidade do mal”. A filósofa que sempre olhou o mundo que a rodeava no sentido de o compreender é indissociável do trauma do Holocausto, evento que definiu todo o seu trabalho. Arendt negou aos crimes nazis uma conotação demoníaca, humanizando os seus praticantes enquadrando as suas ações como consequência de uma ideologia que banalizava o assassínio e que lhes suprimia o discernimento e o livre arbítrio. Este era o lado hediondo e perverso da banalização a que aludia, pois o mal era perpetrado por homens comuns entregues a uma ideologia extremada e cega. Ao negar o pensamento próprio racionalizavam e legitimavam Hitler, apesar da imoral realidade do seu regime.

Segundo Arendt as atrocidades eram cometidas como resultado do lado funcional do sistema nazi, por meros funcionários que apenas cumpriam ordens e executavam o seu dever. Desta forma questiona o próprio conceito da culpa. A falta de agência própria destas “peças” da engrenagem revelam um lado superficial de quem não questionava a autoridade, logo ausência de responsabilidade. E sem responsabilidade, não há culpa. A polémica do seu pensamento instalou-se quando, neste mesmo contexto, Arendt dirigiu acusações de pronto colaboracionismo com o regime nazi por parte de elementos dos conselhos judeus, o que lhe valeu um coro de críticas e uma ostracização que nunca a largou. Originalmente uma sionista ativa, Arendt, ardente defensora da pluralidade e da convivência dos diferentes povos e culturas, foi crítica da solução que levou à criação de Israel, prevendo o conflito que até hoje nunca se sanou. Afirmou na altura que quando a nossa casa não é reconhecida pelos nossos vizinhos, então não é uma casa, mas sim uma ilusão que se tornará um campo de batalha.

Através de uma série de testemunhos de filósofos e pensadores, alguns amigos pessoais de Hanna Arendt, mas nem por isso menos críticos de algumas das suas opções, Ada Ushpiz traça em Vida Activa um retrato biográfico da filósofa alemã com o auxílio da leitura ponderada em offde cartas pessoais, trocadas com amigos, amantes e mentores, e de excertos dos seus livros dando a conhecer uma síntese dos seus pensamentos convocando uma reflexão histórica, mas também de grande relevância e urgência atual. A terrível capacidade do Homem para cometer os mais impensáveis e atrozes atos continua bem viva hoje em dia e, infelizmente, continuará viva amanhã. Além disso a memória é curta e corremos o risco de não reconhecer os sintomas das ideologias e regimes totalitários que, ao criar falsas necessidades, e ao apontar o dedo a um bode expiatório, normalmente um povo ou uma raça considerada parasita e supérflua, colocamos em risco não só o delicado equilíbrio da nossa vivência, como a nossa própria Humanidade.

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