A coisa de que os pesadelos são feitos

A coisa de que os pesadelos são feitos

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Este texto foi publicado originalmente na Take Cinema Magazine dia 11 de Setrembro de 2017 com o título [MOTEL/X 2017] It e pode ser lido na íntegra aqui.

Na sequência da nostalgia pela década de oitenta omnipresente no presente panorama cultural, não é de estranhar a recuperação de uma obra de Stephen King para uma adaptação cinematográfica. Tendo dado nas vistas com Carrie, a sua primeira obra em meados da década de setenta — rapidamente adaptada ao cinema —, o escritor tornou-se numa presença constante durante o resto da década e, especialmente, no decorrer da década seguinte, tanto através das suas publicações como das incontáveis adaptações dos seus livros para o grande ecrã.

Para além de Carrie, pode-se responsabilizar o autor de terror mais famoso do mundo por títulos como The Shining (Stanley Kubrick, 1980), Zona de Perigo (David Cronenberg, 1983) , Cujo – O Novo Símbolo do Terror (Lewis Teague, 1983), Christine: O Carro Assassino (John Carpenter, 1983) ou Cemitério Vivo (Mary Lambert, 1989) — alguns da responsabilidade de conceituados realizadores. A televisão levou mais algum tempo a apanhar o comboio Stephen King, mas em 1990 foi produzida uma adaptação de A Coisa (It, no original), um dos mais populares livros do autor junto dos seus fãs. It – Palhaço Assassino foi uma minissérie com cerca de três horas realizada por Tommy Lee Wallace com Tim Curry no célebre papel principal do assustador palhaço Pennywise. Quem a viu guarda boas recordações de uma adaptação eficaz e este não era um título propriamente nas bocas do mundo para ser refeito.

A verdade é que foi mesmo anunciada uma nova adaptação desta história para o cinema. Inicialmente um projecto de Cary Fukunaga, para qual escreveu um guião com Chase Palmer, foi no entanto parar às mãos de Andrés Muschietti quando aquele se afastou da produção por diferenças de opinião com a Warner Bros. O novo realizador — que agora assina Andy — fez reescritas não creditadas, sendo que o polimento final do argumento foi da autoria de Gary Dauberman. Acontece que, entre o anúncio desta nova adaptação e o lançamento das primeiras imagens e materiais promocionais, foi crescendo descontroladamente uma inesperada antecipação, de tal maneira que, quando chegou a data de estreia nos EUA, quebrou todos os recordes de bilheteira para um filme de terror no primeiro fim-de-semana de exibição. Aqui em Portugal, ainda antes de estrear, foi exibido na esgotadíssima sessão de encerramento do MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e a expectativa na sala era palpável.

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Talvez porque os anos oitenta estejam mesmo outra vez na moda, ou talvez porque há muita gente a ter medo de palhaços, o imaginário de It teve uma enorme ressonância junto do público. O que os mais atentos saberão, mas que o marketing tem inteligentemente minimizado, é que este filme não adapta a totalidade do livro. A história contada originalmente em duas narrativas separadas por vinte e sete anos contará, nesta versão, com apenas uma delas, sendo que a outra é imediatamente prometida no genérico final ao “revelar” que este é somente o primeiro capítulo. Na cidade de Derry, no estado norte-americano do Maine, têm andado a ocorrer frequentes desaparecimentos de crianças, incluindo Georgie, o irmão mais novo de Bill. Durante as férias de Verão, o inconformado Bill procura Georgie com a ajuda dos seus amigos Richie, Eddie e Stanley, os autoproclamados Clube dos Falhados, onde acolhem o novo miúdo Ben, o acossado Mike e Beverly, a única rapariga do grupo por quem Ben e Bill ficam imediatamente atraídos. Não bastando as frágeis relações familiares da generalidade dos amigos, vêem-se diariamente perseguidos por um bando de rufias liderados por Henry. Mas nada os podia preparar para o pesadelo que vai ser o palhaço Pennywise, uma criatura que os atormenta com intenções de os raptar e matar alimentando-se dos seus maiores pesadelos, aparentemente repetindo um ritual de crime e morte a cada vinte e sete anos.

A acção que na história original decorria na década de cinquenta —época que fascina o autor, por ser a da sua infância —, foi aqui actualizada para finais da década de oitenta — alteração inteligente porque, não só capitaliza com o factor nostalgia, como o próximo filme, passado vinte e sete anos depois, poderá ser contemporâneo — e todos os elementos típicos de Stephen King estão aqui presentes. Uma das características essenciais do escritor, muito antes de chegarmos às partes sobrenaturais ou assustadoras, é a qualidade da sua construção do mundo que serve como pano de fundo às suas histórias. A verosimilhança e realismo da sua caracterização das personagens e das suas relações é de maior importância para o peso dos acontecimentos que os esperam. E, como qualquer autor, King tem elementos a que recorre frequentemente, tais como o Maine como cenário; a infância — incluindo um olhar desconfiado sobre a idade adulta — e a perda da inocência como temas centrais; e bullies violentos como antagonistas de eleição — normalmente greasers, aqui transformados em rapazes de liceu com cortes de cabelo comprido atrás a condizer.

It é uma experiência assustadora. A sequência de abertura é uma prova disso. Depois do prólogo intenso, os momentos de alívio são escassos. Muschiettifaz questão de colocar constantemente o espectador em situações de tensão e antecipação nervosa pelos sustos que preparou. O problema é que estes sustos se baseiam em jump scares, acompanhados pela bombástica banda sonora, que produzem eficientes picos de adrenalina que não têm efeito duradouro. Mas, contas feitas, meterá o filme medo? Presumo que isso possa depender da relação de cada um com a imagética do palhaço assassino, mas arrisco-me a dizer que é pouco provável que It transponha a porta do cinema e nos acompanhe pela noite até casa. Com a colaboração do director de fotografia Chung-hoon Chung, o realizador construiu um visual verosímil de época e consegue um excepcional aproveitamento das escuras cenas na velha mansão, bem como nos esgotos, onde o grupo de amigos procura enfrentar os seus medos. E aqui é onde reside a maior falha que se poderá apontar.

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Conpreendo que esta é uma história contada a partir do ponto de vista subjectivo de crianças, ainda assim a narrativa parece algo insular. Os actores mais novos são irrepreensíveis e têm boa química juntos, oferecendo pontuais momentos de genuíno humor. Mas apenas temos um vislumbre da natureza suspeita, por vezes abusiva, dos adultos da cidade. Perdeu-se aqui uma ótima oportunidade para aprofundar as causas dos traumas das personagens infantis, ao invés de apenas salpicar a narrativa com algumas cenas superficiais. Além disso, tal como os bullies, os adultos são caracterizados no limite (ou além) da caricatura. Por explorar ficou também a relação de todo o resto da cidade com os desaparecimentos das crianças. É sugerido tenuemente que haverá alguma indiferença (complacência ou cumplicidade?) por parte dos adultos em relação às tragédias ocorridas —note-se a cena do novo anúncio do desaparecimento de uma criança a ser agrafado por cima de outros anúncios de outras crianças — mas nunca temos uma verdadeira percepção desta realidade, tal como não testemunharemos no final às consequências de alguns crimes cometidos entre pais e filhos.

Chegados à recta final, a par de algumas imagens de uma assombrada beleza e teor macabro, a quantidade de cenas concebidas para arrancar sustos à plateia teve um efeito sedativo e, tal como as personagens, também nos sentimos imunes ao susto, não por um genial planeamento da narrativa para fazer o público acompanhar a viagem emocional do grupo, mas por ineficácia de Muschietti ao insistir na fórmula que se revelaria mais certeira se fosse usada parcimoniosamente. It não é o filme “mais assustador de sempre” como se ouviu por aí, mas é um filme competente e, porque o género de terror também tem direito a bons resultados de bilheteira, merecedor da atenção que lhe foi prestada.

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